abril 2, 2004

Olhos de melancolia

Retrospectiva inédita de Iberê Camargo chega ao MAM-BA, que inaugura, no mesmo dia, mostra do escultor espanhol Francisco Leiro

A capacidade de fazer o homem olhar para as próprias mazelas, induzi-lo a refletir sobre o inexorável - a morte, por exemplo - era uma característica de Iberê Camargo. Como ele mesmo dizia, não era artista de fazer “mortalha colorida”. Quem vê sua última tela, Solidão, pensa em dor, abandono e desespero. A obra meio fantasmagórica é uma das 77 que estarão no Museu de Arte Moderna da Bahia, a partir de segunda, compondo uma retrospectiva inédita do artista no Nordeste.

Iberê Camargo: Diante da Pintura traz a Salvador uma superexposição do artista que é considerado o maior expressionista brasileiro, morto em 9 de agosto de 1994, de câncer. Já passou pela Pinacoteca do Estado de São Paulo e pelo Paço Imperial (RJ) e, depois de Salvador, vai para Recife e Fortaleza. Na Bahia, explica o curador da mostra, o crítico de arte e professor da Escola de Belas Artes da UFRJ, Paulo Venancio Filho, será apresentada uma versão menor da que foi vista pelos sulistas, porém não menos abrangente e significativa.

Por trás do grandioso evento, que contará na inauguração com a presença do diretor do Centro Georges Pompidou, de Paris (França), Alfred Pacquemant, está a Fundação Iberê Camargo (RS). A instituição organizou a vinda dos trabalhos do artista gaúcho - pinturas, gravuras e desenhos -, que cobrem desde os anos 40 até os mais recentes. Paisagens, retratos e naturezas-mortas dos primórdios da carreira até a fase abstrata e a volta à figuração, nos anos 80, estão lá.

As indefectíveis séries Carretéis e Ciclistas - reminiscências de infância e adolescência - não foram esquecidas. Nem as soturnas telas do final da vida do Machado de Assis da pintura brasileira. Em 1980, um fato marcaria tragicamente a vida de Iberê: andando por Botafogo, bairro carioca, e já preocupado, naquela época, com a violência, foi agredido por um estranho na rua. Armado, reagiu e matou o homem com dois tiros. Depois de dois meses preso, foi absolvido pela tese de legítima defesa.

Para o curador Paulo Venancio Filho, o fato de sua pintura se transformar a partir desse momento era algo que decorria mais de fatores internos do que externos. “A mudança era uma condição inerente à sua pintura”. De fato, o artista que fez parte do Grupo Guignard e chegou a se estranhar com Portinari por recusar a formação acadêmica, jamais se descuidou de uma visão crítica de sua obra. Autor de Iberê: O Desassossego do Mundo (2001), Venancio reconhece, porém, que o incidente deu um caráter maior de tormento ao que o artista já fazia. O fato parece ter precipitado a volta do pintor e desenhista para o Sul, em 1982.

Em vida, Iberê participou de várias exposições internacionais - em Nova Iorque e Tóquio, e ganhou o prêmio de gravura na Bienal do México e de melhor pintor nacional na VI Bienal de São Paulo. Deferência que ainda não lhe deu o tanto que merece de reconhecimento mundial, segundo Paulo Venancio.

Esse quadro deve mudar com a abertura do Museu Iberê Camargo em Porto Alegre, em 2005. Projeto assinado pelo renomado arquiteto português Álvaro Siza, vai abrigar cerca de quatro mil obras do artista. A maquete e os croquis do museu estarão expostos no MAM.

serviço

Exposição Iberê Camargo: Diante da Pintura
• Museu de Arte Moderna da Bahia - Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão (329-0660).
• Abertura na segunda-feira, para convidados, às 19h. Ter a sex, das 13 às 19h; sáb e dom, das 14 às 20h. Até 5 de maio.
• Mesa-redonda sobre o artista no dia 6, a partir das 14h, aberta ao público. Presenças do curador Paulo Venancio Filho e da crítica de arte Mônica Zielinsky, responsável pelo projeto de catalogação da obra do artista.


Simone Ribeiro
Jornal A TARDE, 03/04/2004