O banho cultural
Ildásio Tavares
Para entender a cultura brasileira atual é preciso um mergulho diacrônico em nossa história, submergida em obscurantismo e afligida por uma concentração perversa. Qualquer política cultural no Brasil tem que considerar não só as exclusões diastráticas (por classe) como também diatópicas (por cidades, estados e regiões) do terceiro mundo, colônia de uma colônia cultural desde o fiasco português do Alcácer Kibir, o Brasil pontua sua formação com servitude política e econômica. Para onde vão a grana e o poder, para lá se bandeia a cultura.
Em conferência na Academia Brasileira de Letras, frisei que fomos espanhóis de 1580 a 1640, o que se reflete, por exemplo, na poesia de Gregório, caudatária de Gôngora e de Quevedo e nos sermões de um padre de uma ordem espanhola, Vieira.. Quem se lembra disso? No entanto, esta vassalagem é fulcral para aquilatarmos a influência do Barroco tanto em nossa formação política, como na criação artística e literária; e em nosso inconsciente coletivo.
O foco cultural que nasce na Bahia, desvia-se para Minhas no século XVIII e para o Rio, no século seguinte, na esteira da corte. País pragmático, São Paulo decola no final dos oitocentos, e, na esteira das vanguardas, compõe, no século passado, com cariocas (e mineiros emigrados para o Rio) o eixo de avaliações e decisões de nossa cultura. Apesar de toda a concentração deste eixo que não perde ocasião de nos sabotar (vide recentes distorções da violência no Carnaval) a Bahia permanece de pé como centro gerador de cultura. Na música, nem se fala. Nem na baiana de acarajé, nosso emblema oficial. Nem no nosso eterno carnaval súperbakthiniano. O cinema começa a ressuscitar. A dança corre no mundo. O teatro viaja. Mas o sul ainda tem a mídia, a literatura e é quem bate o carimbo de nacional. Rio e São Paulo. Em Belo Horizonte nada acontece. Há muito tempo.
Somos o terceiro mundo do terceiro mundo, cujo terceiro mundo é o interior e este vive da capilaridade. A interiorização da cultura tem que ser precedida por uma cuidadosa preparação do terreno. A cultura formal não é um gênero de primeira necessidade nem será degustada como acarajé de Cira. Antes de se incentivar a produção cultural do interior, tem-se de pensar na educação e formação do receptor local. Como difundir cultura se a grande maioria dos nosso municípios não possui sequer uma livraria? Um teatro? Uma sala de projeções? Uma biblioteca? Seria uma bolsa família cultural, não mais que demagogia e desperdício..
A musica de Axé talvez não existiria sem a WR. O TCA, o Vila, o Teatro XVIII, cresceram, direta ou indiretamente à sombra do poder e se popularizaram. A capital é um pólo de atração e um campo aberto. João Ubaldo é de Itaparica, Caetano e Bethânia de Santo Amaro, Jorge Amado de Ferradas, Eduardo Portella de Feira. Tom Zé de Irará. Eu de Gongogi. Temos que buscar um interior no interior do interior.
Publicado na Tribuna da Bahia, em 03 e 04/03/07
Contribuição de Sante Scaldaferri
