OLHAR AMOROSO SOBRE SALVADORA luz, o mar, o casario e as igrejas da capital baiana sempre serviram de inspiração para artistas baianos ou de fora
Os primeiros a se render aos encantos da cidade que hoje completa 455 anos de fundação foram os pintores, que por aqui passaram ou viveram a partir do século XVII, como bem comprova uma pintura do espanhol Juan de La Corte, que retrata a cidade na época das invasões holandesas, datada de 1625 e cujo original se encontra na Espanha.
O trabalho, de grandes dimensões, um óleo sobre tela, intitulado Quadro comemorativo da chegada e vitória de dom Fradique de Toledo Osório contra os holandeses que ocuparam a cidade em 1625, é um retrato encantador de Salvador no século XVII, vista do alto, com seus muros. Trata-se de uma cópia, mandada fazer pelo ex-governador Luís Viana Filho, que foi adquirida pela prefeitura e se encontra no gabinete do prefeito. É a mais antiga vista da cidade. Uma outra cópia integra o acervo do Museu da Marinha, no Rio de Janeiro.
LUMINOSIDADE – A Cidade do Salvador ou da Bahia, como era também conhecida até muito recentemente, sempre inspirou os artistas, sobretudo por sua luz, que destaca as cores do céu e do mar, a exuberante vegetação e os contrastes da paisagem - os miradouros, ruas, praças, ladeiras, encostas, fontes, igrejas e casarios.
O Museu de Arte da Bahia (MAB) guarda em seu rico acervo um grande número de trabalhos - pinturas, desenhos, aquarelas, mapas, litografias e gravuras - de artistas brasileiros e estrangeiros. Entre eles, destaca-se um óleo sobre tela, 0,68 m x 1,45 m, de Joseph Leon Righini, intitulado Vista do Porto de Salvador no século XIX. Retrata o Solar da Unhão, antes da reforma que lhe acrescentou mais um andar, toda a encosta da Ladeira da Preguiça e trecho da Cidade Baixa com casarios que hoje não mais existem.
Há cinco anos, a exposição Os 450 Anos da Cidade do Salvador no Olhar dos Artistas, montada no MAB, em 1999, em comemoração aos 450 anos de fundação da cidade, com curadoria de sua diretora, Sylvia de Menezes Athayde, reuniu dezenas de trabalhos, do acervo do museu e de outras instituições públicas e de colecionadores particulares, possibilitando ao grande público conhecer essa produção que retrata plasticamente parte da história da capital baiana.
OS VISITANTES - "O quadro de Leon Righini, um italiano que esteve em Salvador em meados do século XIX, retrata a cidade no período em que por aqui passaram Charles Darwin, Maria Graham, o Conde Suzannet, o arquiduque Maximiliano de Habsburgo e o Príncipe de Joinville, entre outros.
Maximiliano, que aqui esteve em 1860, disse, em seu livro Esboços de viagem, que gostaria de ter 100 olhos para melhor poder observar a beleza de Salvador. A inglesa Maria Graham não só escreve sobre o que vê como também fez vários desenhos que retratam aspectos da cidade. "Hoje parte desse encanto acabou, pois infelizmente estão destruindo tudo aquilo que tornava Salvador uma cidade singular", destacou Sylvia Athayde.
Muitos outros visitantes estrangeiros deixaram trabalhos que testemunham a beleza de Salvador. Rugendas, por exemplo, tem uma gravura sobre Itapagipe. O francês Victor Frond fotografou vários trechos da cidade e, ao voltar para Paris, mandou desenhar as paisagens captadas em suas fotos, transformando-as em gravuras, que compunham o chamado Álbum Ribeyrolles. O acervo do MAB guarda preciosidades, como uma série de gravuras de William Gore Ouseley, uma gravura colorida de Edmund Patten, que retrata toda a cidade, vista do mar, com a encosta e seus monumentos, enumerados e legendados, num total de 70, acrescida da frase, em inglês, "Baleias na água a uma distância de 500 metros", dentre outras.
A pinacoteca do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia tem um desenho aquarelado que retrata um trecho do Barbalho, na segunda metade do século XIX, mostrando a fachada de várias casas. E, em um primeiro plano, o jardim da casa da Baronesa de Alenquer, com pessoas em trajes de época. O autor, o alemão Julius Naeher, também deixou um diário com impressões da sua visita à capital baiana, destacando a beleza das frutas tropicais e a maravilha de dormir numa rede.
Vários outros estrangeiros, como F. Salathé, Emílio Bauch, Eméric Essex Vidal e T. Fischer, retrataram em gravuras e aquarelas aspectos da cidade, trabalhos que hoje pertencem a colecionadores particulares e que foram mostrados pela primeira vez na exposição do MAB em 1999.
OS BAIANOS - Os três grandes pintores acadêmicos baianos que nasceram no final do XIX - Presciliano Silva (1883-1965), Alberto Valença (1890-1964) e Manoel Mendonça Filho (1894-1964) - deixaram trabalhos que retratam Salvador. O acervo do MAB guarda de Presciliano duas importantes pinturas, Paisagem do Dique, de 1917, e Forte de Monte Serrat, de 1926, ambos óleo sobre tela. De Mendonça Filho, o museu tem os trabalhos Estaleiro na Gamboa, Amanhecer na Baía de Todos os Santos e Feira de Água de Meninos, de 1940, todos óleo sobre tela. De Alberto Valença, há as pinturas Paisagem de Santo Antônio da Barra, de 1938, e Igreja de Santana e Casario, de 1949, ambos óleo sobre tela.
"O quadro de Presciliano Paisagem do Dique foi feito logo depois de sua chegada da Europa. Monocromático, o foco do olhar é impressionista, pois ele estava impregnado pelo movimento com que teve contato durante sua estada em Paris. O trabalho de Mendonça Filho Feira de Água de Meninos tem um imenso valor histórico-sentimental, além do artístico, pois ele capta todo o cromatismo e atmosfera locais", destaca a museóloga Sylvia Athayde.
Artistas modernistas, baianos ou não, como Carlos Bastos, Jenner Augusto, Lígia Sampaio, Nilton Silva, Jaime Hora, Juarez Paraíso, José Guimarães, Calasans Neto, Emílio Magalhães, Oscar Caetano, Hebe Carvalho, Hélio Bastos, Yedamaria, Rescala e Carybé – que confessou, com pesar, não ter tido o privilégio de nascer na Bahia –, também se renderam aos encantos da cidade e a retrataram.
ENCANTOS - "Salvador sempre foi uma fonte de inspiração. Renomados artistas nacionais como Inimá de Paula, Djanira, Pancetti, Aldemir Martins, Bonadei e Bustamante Sá não se furtaram a retratar Salvador ao passar pela cidade. Poty, um artista que veio do Paraná e trabalhou no ateliê de Mário Cravo, tem uma série de gravuras lindas sobre Salvador", relata Sylvia Athayde.
Manabu Mabe, que era amigo de Odorico Tavares (superintendente dos Diários Associados e considerado o braço direito de Chateaubriand na Bahia), pintou uma vista de Salvador incluindo a Gamboa e a Avenida do Contorno. Artista abstrato, ele se rendeu aos encantos de Salvador e fez uma pintura figurativa que mostra a paisagem da Baía de Todos os Santos, que se descortinava da janela de seu quarto no Hotel Bahia, onde se hospedava.
É interessante observar que no século XVIII não há registros de pintores retratando Salvador. Os grandes artistas plásticos baianos – Franco Velasco, José Joaquim da Rocha, José Teófilo de Jesus, José Rodrigues Nunes e outros – integrantes da Escola Bahiana de Pintura se dedicam à pintura sacra, a uma outra visão. A cidade volta a ser falada, descrita e pintada com intensidade a partir do século XIX.
Muitos artistas naïfs também retratam Salvador, como Licídio Lopes, João Alves, negro e engraxate, que trabalhava na Praça da Sé e tinha seu ponto perto do Palácio Arquiepiscopal; Antonio Cardoso, que assinava Cardosinho, Willys, e muitos outros que ainda hoje retratam Salvador pintam e vendem seus trabalhos na área do Pelourinho.
DOCUMENTAL - O arquiteto e pintor baiano Diógenes Rebouças legou à cidade um importante acervo iconográfico, reunido no livro Salvador da Bahia de Todos os Santos no século XIX. O trabalho com as pinturas documentais tem textos de Godofredo Filho, Pedro Calmon e Thales de Azevedo e foi publicado em 1977.
"Diógenes Rebouças era um grande conhecedor e defensor do patrimônio de Salvador e retrata a cidade do século XIX. Ele pinta a Cidade da Bahia, retratada em documentos e cartões postais da época. Ele vai buscar inspiração na estética do século XIX, com seus trajes de época.
Ele pinta, por exemplo, o Dique do Tororó cercado de verde, a topografia da cidade vista do mar, o casario do Cais do Ouro. O acervo do MAB tem uma grande aquarela que retrata a Feira de Água de Meninos. Além de uma plasticidade de grande beleza, são pinturas que viram documentos históricos", ressalta Sylvia Athayde.
"Sob o rico e dourado esplendor solar dos trópicos e um reluzente céu azul, chegamos, às 10 horas, de coração alegre, à grande e extensa Baía de Todos os Santos. Foi um desses momentos felizes em que, no sentido mais lato da palavra, se nos abre um mundo novo, quando desejaríamos ter cem olhos para observarem as maravilhas desconhecidas que se nos revelam ininterruptamente e de todos os lados; um desses momentos em que, em meio à alegria, surge o pesar de não percebermos tudo, de não gravarmos tudo na memória"
Trecho do diário de viagem do arquiduque Maximiliano de Habsburgo, ao chegar em Salvador no dia 11 de janeiro de 1869
Suza Machado
Jornal A TARDE, 29/03/2004
