AVENTURAS DE UM NEO-BAIANO NO TEATRO DE INVERNO PAULISTA
Léo e Aninha, eu aceito escrever esta coluna e com um prazer incomensurável. Sobre o quê escrever ficou um pouco difícil pela própria multiplicidade de categorias que insisto em fazer parte. Coisa da idade querer fazer tudo ao mesmo tempo e agora (uma ex-professora marxista de Antropologia recém convertida ao catolicismo chamava este estado de "gozo cósmico").
Quero poder falar um pouco de tudo e também um pouco de nada. Discutir, refletir, aceitar e debater a opinião dos possíveis leitores. (Eles existirão em algum lugar deste ciberespaço infinito). Bom, comecemos então por um bom motivo: o Teatro. Estou aqui há mais de dois mil quilômetros de distância de nossa Salvador.
Depois de alguns dias na capital, fugi da Urbe e corri para São José do Rio Preto (415 km da capital). Aqui tudo é muito diferente. A cidade está mais perto de Minas Gerais (100 km) do que da capital paulista. O tempo que gasto entre Salvador-São Paulo de avião é o dobro pra chegar da capital até aqui. A cidade é de uma organização absurda, como a maioria da cidades do interior paulista, e olha que esta tem quase 400 mil habitantes.
É um centro regional econômico e cultural de centenas de cidade do noroeste paulista. Faculdades, comércio desenvolvido, cinema e teatro. Este Festival realizado aqui há 34 anos é um dos mais importantes do país e há alguns anos ganhou um cara internacional. Entre os curadores deste ano, a atriz Mariana Lima. São mais de 80 espetáculos e 150 apresentações em 10 dias de festa dedicados a esta arte milenar, escassa e inexoravelmente viva.
Entre os selecionados, aqueles que fizeram a história do teatro no Brasil como os do Teatro da Vertigem e sua trilogia (O Livro de Jô, Paraíso Perdido e Apocalipse 1.11), o Teatro Vento Forte (do dramaturgo Ilo Krugli), o conhecido diretor Antunes Filho com o Centro de Pesquisas Teatrais do SESC e outras companhias de renome do Rio de Janeiro, Equador, França, etc.

Voltar a São José do Rio Preto e para este Festival é trazer lembranças forte da adolescência, onde nos perdíamos no emaranhado de informações e maravilha assistindo aos espetáculos, durante o inverno paulista. Alguma coisa mudou. Disseram que eu voltei abaianado! Inda mais agora que sou da moqueca regada a dendê...Não me identifico mais com o ar constitucionalista dos rincões paulistas. Acostumado ao nosso clima invejável de Salvador com mínima de 20 graus e máxima dos trios-elétricos, confesso que me sinto na Europa. Mas, a região também tem clima peculiar: durante o dia é sol escaldante que beira os 30 graus e a noite, 10.
O tema do Festival deste ano não poderia ser mais oportuno diante do pessimismo que invadiu o mundo em guerra: UTOPIA. A palavra é uma criação de Thomas Morus (1480-1535). Era um país imaginário criado pelo escritor inglês, onde o governo proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. Fica claro agora porque perseguir tanto a UTOPIA. Ao mesmo tempo em que ela está no ideal inatingível (ou não), é uma referência, um norte para os que sonham com uma outra realidade.
E foi um pouco disso que Ilo Krugli quis mostrar no espetáculo AS QUATRO CHAVES. Para quem não conhece, Ilo nasceu na Argentina e radicou-se no Brasil. Há 30 anos é uma das maiores provas de resistência teatral no país. Este espetáculo que faz parte do repertório da companhia fala sobre nossos desejos e sobre o que fazemos pra concretizá-los. É assim com Joana, que tinha o desejo de ter filhos (e acabou tendo 783), do Gigante, que queria ter um coração, de seu Zé, que precisava fazer pães para alimentar os filhos de Joana e do Desconhecido, que precisa urgente de uma Conhecida. O espetáculo se desenrola envolvendo criança, jovens e adultos num grande jogo de descoberta. No final, todos os desejos conquistados são roubados e trancados em uma caixa. Aí sim entra a grande estrela do espetáculo: o público, com força total na cena. Depende dele encontrar as chaves que vão trazer de volta os desejos de todos os personagens. No final, o bruxo Ilo Krugli, com seu teatro encantado e mitológico de bonecos, adereços e música popular, consegue aquilo que é fundamental para esta arte escassa existir: a comunhão íntima, preciosa, dinâmica, real e viva entre atores e platéia. Não vai ser possível ver todos os espetáculos durantes estes dias. Uma companhia do Líbano prometeu presença, mas não poderá chegar a tempo por falta de visto. Eles falariam sobre censura, sexualidade e teatro. É uma pena. Talvez sejam um dos povos mais apropriados para falar sobre isso. Na periferia, o Festival também leva a programação para os carentes de informação e cultura com o espetáculos franco-brasileiro VIAGEM EM TERRA INTERIOR.
Mas nem tudo são glórias no Festival. Há 10 anos atrás poderíamos ver alguns espetáculos e sempre achá-los maravilhosos pela magia inata que todo palco tem. Bote uma cadeira em cena, um guarda chuva, um ator, alguém assistindo e lá está o teatro pulsando. Porém, basta recorrer a Peter Brook para saber que existem infinitas formas de teatro. Uma delas é o Teatro Morto. É um teatro sem propósitos, sem objetivo, sem atualidade. Para Bertolt Brecht, uma das primeiras perguntas ao se montar um texto deve ser: "porquê?". Com A LAVANDERIA de Ricardo Matioli talvez tenha faltado este questionamento. Os atores em cena têm aquela voz "teatral", aquela nada natural, aquele jeito de falar que espanta tanta gente do teatro e deixa a pessoa traumatizada que fica pensando o resto da vida que em teatro deve-se falar "daquele jeito". Uma conhecida do Rio de Janeiro que veio pra cobertura resumiu: "constrangedor". Talvez tenha faltado um pouco de espontaneidade e naturalidade. Mas para alimentar o espírito de Poliana, tudo bem, as cadeiras e escadas eram bonitos, como disse minha amiga e diretora de cena, Elisete Jeremias.
Para nos livrar de todas as mazelas enfrentamos um "ensaio fechado" para convidados, do PARAÍSO PERDIDO, direção de Antônio Araújo com o Vertigem. Voltamos redimidos para nossas casas e bares. Encenado dentro da igreja Basílica aqui em Rio Preto, o espetáculo é emoção do começo ao fim. Coerente, musical, impactante...bom, não vou gastar palavras para falar de um espetáculo que já tem anos de história, criticado por gente tarimbada e que galgou seu lugar na dramaturgia contemporânea brasileira.
Mesmo com todo o conservadorismo da região, aqui não teve as famosas carolas em frente à igreja tentando impedir o espetáculo como quando estreou na década de 90 em São Paulo. Pelo contrário, algumas delas estavam lá acompanhando a movimentação dos atores que profanavam aquele espaço com seus questionamentos sobre a fé, mas que nem por isso, deixaram de sacralizar a igreja com seu ritual, como numa missa fervorosa de domingo. Opiniões a respeito deste artigo e opiniões podem ser enviadas para mdetroi@terra.com.br
