Aquarela do Brasil
A diversidade cultural do País está representada em mais uma edição do X Salão da Bahia, que completa dez anos
Dois baianos, Eriel Araújo e Vauluizo Bezerra, saíram premiados na relação dos seis melhores do X Salão da Bahia, anunciada ontem à noite no Museu de Arte Moderna da Bahia. Davi Cury (RJ), Frederico Câmara (MG), Marcone Pereira (PA) e Paulo Meira (PE) são os demais ganhadores da polpuda soma de R$ 15 mil, valor concedido a cada um deles individualmente. Confirmando tendência da arte contemporânea, instalação e fotografia se consagram como linguagens dominantes no evento.
"Como conjunto, trata-se de um dos melhores dos últimos dez anos", observa o diretor do MAM-BA e um dos membros do júri, Heitor Reis. Eriel Araújo, por exemplo, construiu uma instalação com água do mar. Ele registrou o dia-a-dia da Baía de Todos os Santos ao longo de 2003 e transpôs o que viu e absorveu para o trabalho. Vauluizo, artista com uma trajetória já consolidada, assina uma obra não menos impactante, que mostra um piano cortado ao meio.
Dez anos de existência e o Salão da Bahia se firma como um dos acontecimentos da cena visual brasileira. Sucesso que, na opinião de Heitor Reis, se deve a uma série de fatores: além do prêmio (um dos mais altos do País), à organização, à continuidade, à qualidade do catálogo e à lisura.
Trinta artistas disputaram a grande final, selecionados de um total de 1.535 participantes de todo o Brasil, além de nove inscrições enviadas por brasileiros que moram em países como Alemanha, Canadá, França, Holanda, Portugal, Suíça e Estados Unidos.
"Este é um salão democrático, limpo, sem nenhuma elucubração conceitual, onde não há manipulação de ninguém, nem mesmo da minha parte. Não faço a menor força para que a Bahia sobressaia", garante o diretor do MAM-BA. Diferentemente de outros anos, a pintura foi a expressão predominante entre os inscritos (496), seguida de instalação (312), fotografia (281), objeto (120), desenho (83), escultura (83), gravura (51), vídeo (37), mídias contemporâneas (17), colagem (14), compugrafia (13) e performance (12). Houve ainda trabalhos de videoinstalação (7), assemblagens (2), relevo, xerografia, bordado, cerâmica, interferência e intervenção (um de cada).
A Bahia vem aumentando sua presença a cada ano: responde por quase 15% dos inscritos, muitos já badalados no circuito nacional e internacional, como Marepe, Paulo Pereira, Caetano Dias e Ayrson Heráclito. A coordenadora do X Salão da Bahia, Adélia Xavier, salienta que em 2003 os homens foram maioria, coincidindo com o resultado. Há nove edições à frente do evento, ela diz que a marca de participantes tem se mantido em torno de mil, número bastante expressivo, a ponto de estados como Pará, Goiás e Paraíba terem utilizado a experiência baiana como modelo.
Para Heitor Reis, o balanço mais positivo que se pode fazer do salão é a construção de um acervo representativo da arte contemporânea brasileira. "Num momento em que os museus sofrem da falta de uma política de aquisição, muito em função das dificuldades econômicas, o nosso evento segue na contramão. Estamos adquirindo seis maravilhosas obras", comenta.
Em dez anos de vigência do salão, o MAM já incorporou 150 peças. Quando o museu foi inaugurado há 40 anos, lembra o diretor, artistas como Tarsila do Amaral, Portinari e Di Cavalcanti, componentes do acervo do museu, não gozavam do estrelato de hoje.
Além dos seis Prêmios de Aquisição, cada um dos 30 participantes do X Salão da Bahia recebe R$ 1 mil para ajuda de custos. O júri de seleção e premiação foi formado pelo curador e diretor do MAM-RJ, Fernando Cocchiarale, pela crítica de arte e curadora Denise Mattar, pelo colecionador e membro do Conselho Curador do MoMA (Nova Iorque), MAM-RJ, MAM-SP e MASP, Gilberto Chateaubriand, pelo crítico de arte e curador Marcus Lontra, pelos críticos Ricardo Ribemboim e Franklin Pedroso e pelo diretor do MAM-BA, Heitor Reis.
Serviço
Exposição X Salão da Bahia
• Ter a sex, das 13 às 19h; sáb e dom, das 14 às 20h. Até 29 de fevereiro de 2004
• Salas de Exposição 1 e 3, Capela e Casarão do Museu de Arte Moderna da Bahia (329-0660)
Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão
• Entrada franca
Vencedores
• Eriel Araújo (BA) – Baía, Bahia, Dia-a-Dia de Todos os Santos (instalação)
• Davi Cury (RJ) – As Mulheres Existem Para que os Homens se Meçam – Penetrante (instalação)
• Frederico Câmara (MG) – Instalação (fotografia)
• Marcone Moreira (PA) – Marabares/Precaução/Popcreto (objetos)
• Paulo Meira (PE) – Sábados (pintura)
• Vauluizo Bezerra (BA) – obra s/título (instalação)
Selecionados
• Alberto Bitar (PA), Tonico Portela (BA), Bernardo Pinheiro (RJ), Bruno Mazzilli (SP), Cláudia Hersz (RJ), Davi Cury (RJ), Eudes Mota (PE), Eriel Araújo (BA), Fernannda Assumpção (SP), Frederico Câmara (MG), Hélio Eudoro (RS), Joacélio Batista (MG), Leila Danziger (RJ), Luiz Braga (PA), Marcone Moreira (PA), Mariana Lima (SP), Mônica Schoenacker (SP), Paulo Meira (PE), Pitágoras (GO), Pedro Marighella (BA), Renan Cepeda (RJ), Regina Sposatti (SP), Rodrigo Paiva (MG), Rosana Ricalde (RJ), Roosivelt Pinheiro (RJ), Saulo Senra (MG), Sidney Azevedo (PB), Suely Farhi (RJ), Vauluizo Bezerra (BA) e Zélia Nascimento (BA).
Simone Ribeiro
Jornal A Tarde - 06/12/2003
