outubro 8, 2006

A Arte de Almandrade

O PARADIGMA ALMANDRADE

A Bahia tem suas supertições e suas surpresas culturais , indiscutíveis, como: Glauber Rocha e João Gilberto. E por que não um Almandrade com suas experiências visuais? Artista plástico, poeta e arquiteto, um clássico fora do eixo (Rio /São Paulo). O trabalho de Almandrade vem se impondo como um lugar à parte da chamada “arte contemporânea”, sua relação intensa e cerebral com o fazer artístico, faz lembrar Wittgenstein e a filosofia. Um paradigma. Há cerca de trinta anos vem nos surpreendendo com o rigor, a sutileza e a coerência de lidar com diversos suportes, segundo a tradição de um saber singular.

Estamos diante de construções que são simplesmente arte, um oficio de quem domina um determinado conhecimento. Incompreensível para leituras apressadas. Talvez, o seu tempo ainda não tenha chegado, só o depois de amanhã lhes pertence, Nietzsche não diria melhor. Entre um construtivismo meio paradoxal e um conceitual critico e mordaz sua arte se mantém fiel a uma poética.

(Nicolas Bernard)

A PERSISTÊNCIA DO NUDISMO ABSTRATO

Pensei em elementarismo, despojamento, abecedarismo geométricos mas acabei por optar pela idéia do nudismo abstrato, para tentar caracterizar a postura e a impostação de Almandrade ante suas criações e criaturas sígnicas que hesitam entre a bi e a tridimensionalidade, em duas ou três cores, em duas ou três texturas.

A parcimônia desses objetos franciscanamente contundente, desenhados, signados (designed), compostos segundo uma grafia de cartilha, porém enganosamente sig-nificada e simplista, posto que metafísica.

Criam um campo significante que parece rechaçar instruções extratexto, mesmo quando inclui algum elemento metafórico in memorian Dadá.

Meteoritos geométricos do pensamento, taquigrafia precisa de uma claríssima visão cuja totalidade se ofuscou, indício e impressão minimal de um evento artístico-mental; ocorrido no panorama ecológico da arte do século XX, como um pássaro em extinção, aparição de ordem inegavelmente metafísica, essência e forma divinas (diria Baudelaire) do pássaro nu da poesia e de seus amores descompostos.

Um nudismo Proun (El Lissitsky) nos trópicos, lembranças metonímica do paraíso, graciosas construções-instalações não habitáveis, amostras quase-duchampescas, quase-vandoesburguesas de um ex-Éden artístico, onde a provável ironia embutida não passa de meio-sorriso.

Esses seres correta e rigorosamente nus, o olho os colhe por inteiros, como objetos cabíveis no bolso. E há música neles, mas não é sequer de câmara - é de cela, nicho e escrínio: são microtonais, minideogramas sólidos à Scelsi.

O Almandrade capricha nas miniaturas de suas criaturas, cuja nudez implica mudez, límpido limpamento do olho artístico, já cansado da fantástica história da arte deste século interminável, deste milênio infinito.

(Décio Pignatari)

O CARPETE ALMANDRADE

Na parede do apartamento, ao lado de outros, um retângulo feito de carpete. A primeira impressão que me vem à cabeça é a do deslocamento. Sabe-se que o lugar “natural” do carpete é no chão, no entanto, este está cobrindo uma fração da parede.

O carpete é um tipo de piso adequado para lugares frios: é grande a sua capacidade de reter calor. Outra característica do carpete é que ele neutraliza o atrito dos sapatos sobre o piso: o andar no carpete é suave e silencioso. Não estaria o artista, ao colocar aquele carpete na parede, querendo silenciar a gula do olhar, impedir o trabalho deste olhar feroz, deste comedor de imagens, imagens do vídeo, da publicidade, da maré de representações que a sociedade contemporânea vai ininterruptamente tecendo?

Como já foi dito, o carpete pertence ao chão, é um objeto primordialmente para os pés. Assim, ao deslocá-lo para a parede é como se o artista estivesse virando o espectador de cabeça para baixo, obrigando-o a olhar para o chão.

Se os olhos continuam seu passeio pelo carpete de Alma, eles vão se deparar com um corte no centro do trabalho, algo como uma janela que permite ao olhar ver uma fatia da parede. A idéia do quadro como janela para o mundo é fundamental na história da pintura ocidental. O quadro seria uma janela através do qual o artista transformaria o espectador em voyeur do mundo. Porém, a janela no carpete mostra exatamente o que o quadro normalmente esconde, mostra a parede. Se o quadro usualmente é uma utopia, o não lugar, uma superfície através da qual se pode viajar, esse quadro de carpete, ao contrário, agarra o espectador pelo colarinho e o obriga a permanecer “aqui”, a se locomover do chão para a parede, da parede para o chão.

Claro, esse objeto tem seus pontos de fuga. Ele não é um ser destituído de parentes, o espectador pode lançá-lo de volta no caldeirão da história da arte. A luta contra o ilusionismo na pintura já é uma velhinha, já tem uma tradição e este trabalho de Alma é mais uma forma de puxar o tapete da arte, de deixá-la no ar.

Retornando ao carpete, me veio à memória que certos motéis usam este material não só no piso, mas também nas paredes e no teto. O alvo deste procedimento é evitar, ao máximo, a propagação do som, não permitir que as conversas ultrapassem a alcova. O alvo do trabalho de Alma tem uma lógica parecida. O artista quer evitar a festa do olhar, o olhar que classifica e descarta o objeto em uma fração de segundos. Ele exige para seu trabalho um espectador asceta, alguém que queira se perder em seu jogo inútil.

Bem, o que eu quis, com essas notas, foi mostrar uma característica básica dos trabalhos de Almandrade: eles são objetos bons para pensar, eles se divertem com a inteligência, são como que máquinas devoradoras de leitura.

(Haroldo Cajazeira)