janeiro 29, 2003

CÍCERO DIAS - Artista plástico brasileiro será enterrado em Paris, dia 3

O cemitério de Montparnasse, em Paris, é conhecido mundialmente por abrigar os restos mortais de celebridades, como o escritor Charle Baudelaire e o filósofo Jean-Paul Sartre. Na próxima segunda-feira, o artista plástico brasileiro Cícero Dias passará a integrar a lista de famosos que descansam no arborizado e amplo local. Seu enterro está marcado para o final da manhã, logo após missa de corpo presente na Igreja de Notre Dame de Grace de Tassy, na mesma cidade.

Nada mais natural que um artista da expressão desse pernambucano esteja cercado por expoentes tão representativos como ele. Morto na última terça, aos 95 anos, Cícero Dias deixa o legado de uma obra monumental. Um dos últimos remanescentes do movimento modernista brasileiro, iniciado com a Semana de 22, ele desfilou com desenvoltura por vários estilos: do surrealismo ao enfoque em figuras femininas, passando pela abstração.

Os traços surrealistas marcam seus primeiros trabalhos, levando o escritor Graça Aranha a considerá-lo o precursor do movimento no País. Na década de 20, criou o famoso painel Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife, que tanto impressionou os modernistas – o renomado marchand carioca Jean Boghici qualificou o trabalho como “a Guernica brasileira”, referência à eloqüente obra de Pablo Picasso, retratando os horrores da Guerra Civil Espanhola.

A relação com o grande mestre cubista espanhol, aliás, é um capítulo à parte na biografia de Cícero Dias. Amigos íntimos, chegaram a dividir uma linha telefônica em Paris, onde o brasileiro fixou residência, em 1937, fugindo do Estado Novo getulista. Cícero foi padrinho de uma das filhas de Picasso (que também era padrinho de sua filha, Sylvia) e era presença constante em seu ateliê.

Apesar de residir na Europa, o artista plástico jamais perdeu de vista suas raízes. Essa ligação não era representada apenas pelas cores quentes de suas telas, como o clima predominante de Pernambuco, mas, principalmente, pelo fato de não conseguir ficar muito tempo longe de sua terra natal. “Ele fazia questão de vir todos anos ao Recife; Cícero Dias era um patrimônio de Pernambuco”, afirmou o governador Jarbas Vasconcelos, ao decretar luto oficial pela morte do artista.

Menino de engenho

Foi no ano de 1907, no Engenho Jundya, município de Escada, a 53 km do Recife, que nasceu Cícero Dias. Sua infância foi igual a de qualquer menino filho de um senhor de engenho abastado, com banhos de rio, brincadeiras e a convivência com cangaceiros. Aos 13 anos, foi estudar no Rio de Janeiro, onde teve contato com os modernistas. Em 1928, realizou a primeira exposição – na verdade, uma mostra paralela ao 1º Congresso de Psicanálise da América Latina.

A partir da década de 40, já residindo em Paris, começou a trabalhar a abstração. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a ocupação da França pela Alemanha, passou pela experiência do cárcere, no campo de concentração de Baden Baden – um dos seus companheiros de prisão era o também brasileiro Guimarães Rosa, então escrevendo o clássico Sagarana. Sua liberdade foi negociada pelo governo brasileiro. Ao ser solto, foi morar em Lisboa, retornando a Paris após o encerramento do confronto armado.

A tendência abstracionista foi se diluindo na década de 50. Nos anos 60, voltou a ser figurativo, explorando temas como as mulheres, paisagens e personagens diversos. Mesmo com a idade avançada, Cícero Dias permaneceu lúcido e gozando de boa saúde até o final. “Ele era o mais importante artista plástico brasileiro vivo. A versatilidade alcançada por Cícero Dias ao longo de sua trajetória artística foi incomum. Certamente, ele deixa uma grande lacuna”, destaca o marchand baiano Roberto Alban, em uma espécie de epitáfio.

Amante da boemia

Em suas idas e vindas ao Brasil, Cícero Dias não dispensava uma visita à Bahia. Seu anfitrião na Boa-Terra era o empresário Mário Portugal, que não escondeu o abatimento pela morte do amigo. “Ele era uma figura fantástica. Além de excepcional artista, Cícero era um homem culto, bem-humorado e apreciador da vida boêmia, especialmente em Paris, onde costumávamos sair à noite”, recorda.

Ele foi apresentado ao pintor pernambucano por intermédio de Odorico Tavares, conterrâneo de Cícero Dias. Sobre ele, Mário Portugal derrama-se em elogios. “Odorico era uma espécie de vice-rei da Bahia nos anos 50. Apesar de não ter nascido aqui, foi uma das pessoas que mais fizeram pelas artes no Estado, que lhe deve homenagens mais grandiosas. Não foi à toa sua amizade com um artista da envergadura de Cícero”.

Em Salvador, o artista plástico ficava hospedado na residência do empresário, no Rio Vermelho. A deferência era retribuída nas suas viagens à França, quando ficava hospedado na Rue Long Champ, endereço de Cícero por mais de quatro décadas. “Como ele mantinha um intenso círculo de amizades, conheci nomes importantes da intelectualidade francesa, como Paul Éluard. Cícero era o representante do Brasil junto à Unesco, em Paris, e espécie de eterno embaixador do País na França”, finaliza.(fonte: José Raimundo Silveira - Jornal A Tarde - 01/2003)