O CAPETA DE LANÚS
No dia 30 de setembro de 1997, o clube atlético Lanús, da Argentina, desembarcou no Aeroporto Dois de Julho, em Salvador, com motivo do primeiro jogo das semifinais da taça Conmebol, torneio sul-americano de futebol que envolvia times que ocupavam terceiras ou quartas colocações nos campeonatos dos seus países, ou escolhidos por outros critérios e que não disputavam a tradicional Taça Libertadores da América. Veio medir forças com o esporte clube Vitória, que credenciou a sua participação na competição por ter ganho a Taça Nordeste daquele ano.
O Lanús é um time dos chamados chicos (pequenos) na Argentina, se bem a sua fundação data de 1915. Tem sua sede e estádio na localidade homônima, um populoso subúrbio da Grande Buenos Aires e nunca conquistou um título na Primeira Divisão do futebol argentino, porém alcançou sua consagração internacional em 1996, ao ganhar a Taça Conmebol.
O fato é que tomando conhecimento de tão insólita presença (não é coisa costumeira ver times pequenos excursionando pelo exterior e menos ainda enfrentando o rubronegro baiano na sua primeira experiência internacional oficial) decidi assistir o jogo, à noite, no Barradão. Foi um jogo nervoso, disputado, afinal o Lanús era o último campeão da competição e se defendeu com unhas e dentes, destacando-se na defesa o zagueiro Ruggeri, campeão mundial em 1986 e vice em 1990 pela Argentina. Os portenhos tentaram segurar o empate para definir a semifinal lá no seu estádio mas o vitória acabou ganhando de 1 a 0. Depois na Argentina, os baianos perderiam por 3 a 1 e seriam eliminados.
Pois bem, esta pequena lembrança esportiva acabaria por aqui se não fosse o fato de Caribé, o artista plástico argentino radicado na Bahia desde 1950, naturalizado brasileiro desde 1957, ter nascido em Lanús em 1911 com o nome de Héctor Julio Paride Bernabó e falecido no dia 4 de outubro de 1997 em Salvador, por tanto pouco dias após a insólita visita do time do seu bairro à cidade do seu coração. Quanto simbólico não tem essa morte (anunciada?) no calcanhar do encontro (casual?) entre Lanús e Vitória, assistido talvez pelo mestre desde as arquibancadas semivazias do estádio? Teria o time de Lanús veio representar o bairro para dar o último adeus para o filho ilustre, numa oculta missão por baixo da camuflagem de um jogo internacional? O certo é que dois eventos aconteceram quase simultaneamente, a vinda desse time de bairro e a morte desse artista do mundo, postos em evidência na difusa vitrine do misterioso acaso, para que alguém tentasse desvendá-lo. Talvez Lanús, sua primeira casa, oferecesse a primeira homenagem ainda em vida enviando seu time, sabendo do desenlace próximo, enquanto o Axé Opó Afonjá, o famoso terreiro de São Gonçalo do Retiro, sua última casa, lhe oferecia a segunda, já depois da morte, na celebração do Axexé, culto fechado e reservado as personalidades caras ao terreiro (ele era Obá)
Ou "simplesmente" tudo não passasse de um jogo que ele mesmo arquitetou para alimentar ainda mais seu espírito brincalhão. Trazer um time de futebol desde o longínquo bairro portenho de Lanús para logo se despedir num candomblé da Bahia, não parece uma fina brincadeira de mestre? Ou o secreto gesto de um pincel, mesclando os extremos de uma vida na última paleta do eterno Capeta Caribé.
Carlos Pronzato é diretor teatral, cineasta e escritor argentino, residente em Salvador.
