março 31, 2003

Holanda celebra Van Gogh

Qual a arte que influenciou Van Gogh e que ele tanto admirava? Desvendá-la é uma experiência inédita, que os organizadores de Vincent’s Choice (A Escolha de Vincent) não cansam de repetir. A mostra, que parecia improvável depois de tantas leituras sobre o artista holandês, abriu a programação de aniversário dos seus 150 anos de nascimento, capitaneada pelo museu dedicado à sua obra, em Amsterdam. Durante todo o dia de amanhã, a instituição que bate recordes de visitação todos os anos - 1,6 milhão de pessoas em 2002 - não fará distinção entre pobres e ricos, liberando o ingresso. A celebração do sesquicentenário não pára e prossegue em junho, com a exposição Gogh Modern, com encerramento previsto para outubro.

A Holanda é, certamente, o país onde se fará mais barulho em torno da data. O museu Kroller-Müller, em Otterlo, já anunciou a homenagem. Afinal, a eclética fundadora do museu, casada com um rico empresário do comércio, Hélène Kroller-Müller (1869-1939), colecionou, de 1908 a 1929, cerca de 300 obras de Vincent van Gogh, entre desenhos e pinturas. Não foi à toa que a mostra recebeu o nome de Vincent&Hélène, reveladora do amor secreto de Hélène pela fantástica obra de Van Gogh. Também promete a mobilização de Bélgica e França para que os 150 anos do artista que tão fortemente marcou o século XX estejam à altura da sua importância. O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em sua homepage na Internet, divulga para abril apenas uma conferência, sobre a amizade artística entre Van Gogh e Gauguin em Arles.

Nova York, Amsterdam e Tóquio. Este foi o percurso da curadoria de Vincent’s Choice - O Museu Imaginário de Van Gogh para chegar o mais próximo possível do gosto apurado do artista. Dos mestres holandeses do século XVII - Rembrandt no topo da fila - às pinturas e gravuras japonesas (Hiroshige era um deles), são 200 trabalhos agrupados. Uma pesquisa extensa pela correspondência de Van Gogh orientou a montagem da mostra, uma vez que ela é um testemunho fiel da paixão que nutria pela arte. Obras populares provenientes de dois museus que gostava de visitar, citados nessas cartas, por exemplo, foram incluídas: o Amsterdam’s Rijksmuseum e o Musée Fabre, em Montpellier (França). Ruisdael, Weisenbruch, Millet, Courbet, Delacroix também figuram entre os preferidos de Van Gogh. Sem contar os amigos - Toulouse-Lautrec, Gauguin e Seurat, entre outros. Uma seção sobre cor e luz desnuda a influência dos impressionistas e pós-impressionistas sobre a obra do pintor. A idéia é mostrar como Va n Gogh fisgou ensinamentos e superou o que aprendeu, fazendo da própria obra escola, que seria mais tarde seguida por revolucionários do século XX, como Pollock e Baselitz.

Gogh Modern - Van Gogh e a Arte Contemporânea acaba sendo um exercício a mais nessa direção. Ou melhor, mais aguçado, ao reunir 80 obras de pintores do pós-guerra, de 1945 em diante, que, de alguma forma, influenciaram-se pelo estilo tremendamente emotivo e pessoal e pela liberdade de pintar do mestre Van Gogh. Baselitz, Dubuffet, Pollock, De Kooning são alguns. São pinturas, esculturas e vídeos de vários artistas e movimentos. A exposição será dividida em quatro seções, cada uma relativa a um diferente aspecto da influência de Van Gogh na arte contemporânea: cor, expressão, homem e natureza. Gogh Modern é resultado de uma parceria entre o Stedelijk Museum Amsterdam e o Museu Van Gogh.

(fonte: Simone Ribeiro - Jornal A Tarde)