junho 30, 2003

O Recôncavo em Veneza

A inspiração vem da obra do francês Marcel Duchamp, que cunhou o conceito do ready-made – quando o artista apropria-se de objetos de uso corrente no cotidiano para transformá-los em arte. Neste sentido, o baiano Marepe, 32 anos, usa utensílios nordestinos, como o filtro de barro, as trouxas de roupa, os telhados dos casebres, pedaços de muros e, com consciência erudita, recria-os.

O artista, que em 2002 participou da Bienal de São Paulo, também integra o grupo em escalada da arte contemporânea brasileira no panorama mundial e que, agora, conquista uma significativa presença na Bienal Internacional de Veneza, que abre amanhã para o público. Ao todo, oito brasileiros participam da 50ªedição do evento, quatro vezes mais que em 2001.

Marepe está entre os artistas jovens mais conceituados no panorama da arte contemporânea brasileira e internacional. Com pouco mais de dez anos de trabalho, já realizou importantes exposições individuais no Brasil e na Alemanha, além de mostras coletivas nos Estados Unidos, Espanha, Itália e Alemanha.

Nascido em Santo Antônio de Jesus, Marepe também faz uso do ambiente urbano como combustível para a confecção de seus trabalhos. É o caso de Embutido Recôncavo - Recôncavo Embutido, obra que o artista exibe na Bienal de Veneza, construída em madeira, dobradiças e ralo de metal e medindo 300 x 300 x 300 cm.

O curador argentino Carlos Basualdo, responsável pelo segmento "A Estrutura da Sobrevivência", organizado no Arsenale, em Veneza, selecionou cinco brasileiros, de um total de 25 artistas em sua seção. Os escolhidos foram: Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Fernanda Gomes, Marepe e Alexandre da Cunha, que vive em Londres.

IMAGINÁRIO POPULAR – "Marepe produz arte a partir de objetos comuns, encontráveis nas ruas e feiras da Bahia e do Nordeste. Seu trabalho semantiza fragmentos do imaginário popular urbano e rural. Mescla esses repertórios visuais de um ponto de vista contemporâneo, pois transita o campo na cidade e esta no campo, urbanizando-os", define o crítico de arte Fernando Cocchiarale.

Aos 17 anos, Marepe se mudou para Salvador, onde ficou 12 anos. Voltou para Santo Antônio de Jesus em 1999. "A cada dia que passa, sinto como foi bom voltar para minha cidade. Estou mais concentrado e tenho mais domínio sobre meu trabalho", revelou recentemente.

Foi em sua cidade natal que ele desenvolveu sua primeira intervenção urbana com a recuperação de duas máquinas velhas de fazer algodão-doce. Numa árvore no centro da cidade, o artista espalhou 4 mil sacos de algodão-doce de várias cores, no dia de São Cosme e Damião. A obra foi sendo devorada no decorrer do dia pela meninada.

Para a Bienal de São Paulo, há um ano, Marepe deslocou um muro de alvenaria de 6 x 2,30m, original de sua cidade, onde está escrito Comercial São Luiz, tudo no mesmo lugar pelo menor preço. "De certa forma, essa frase define um pouco a própria Bienal", cutucou. O "muro" em questão reporta-se ao local onde o avô do artista trabalhou por toda vida.

SONHOS E CONFLITOS – "A Ditadura do Espectador" é o tema da 50º Bienal Internacional de Arte de Veneza, com trabalhos assinados por mais de 350 artistas de todo o mundo. A proposta central é uma reflexão sobre crises e conflitos, sob o impacto direto da recente guerra no Iraque. Tida como a mais prestigiosa mostra de arte contemporânea do planeta, a bienal deverá ser visitada por 300 mil pessoas até o seu encerramento, no dia 2 de novembro. (Claúdio Bandeira)