março 13, 2004

Morre artista da miscigenação

Introdutor do modernismo na Bahia, Carlos Bastos morreu ontem, no Hospital São Rafael, e será cremado hoje, 13/03/2004.

Flávio Oliveira e Jair Mendonça

Parte da imagem da Bahia veiculada em todo mundo se apagou ontem, por volta das 14 horas, quando o ilustrador, muralista, pintor e artista plástico Carlos Bastos faleceu, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Rafael, em Salvador. Bastos, de 78 anos, pertenceu ao grupo que reuniu o escritor Jorge Amado, o cantor e compositor Dorival Caymmi, e os também artistas plásticos Mário Cravo e Carybé (este, argentino). A arte do grupo, de forte impacto nas décadas de 1940 e 1950, falava de coisas e ritos da Bahia, criando o imaginário de sensualidade, miscigenação e africanidade que ainda hoje continua ligado a Salvador e à Bahia. As obras desses artistas, introdutores do modernismo na Bahia, percorreram o mundo. Bastos ilustrou livros de Jorge Amado traduzidos para mais de 40 idiomas. Também possui trabalhos em importantes coleções particulares e museus em países como Estados Unidos, Portugal, Argentina e Rússia. Bastos nasceu em Salvador em 12 de outubro de 1925. Começou a pintar aos 16 anos. Iniciou o curso de Belas Artes em Salvador, concluindo-o no Rio de Janeiro. Estudou também em Nova Iorque e Paris. Sua primeira exposição data de 1947. De lá até a sua morte, foi um trabalhador incansável. "De nada vale o dom se não se trabalha como um operário", disse para explicar a exposição "Pinturas Recentes", de 1989.

DEDICAÇÃO – "Bastos foi um pintor que dignificou sua arte, pois se dedicou totalmente a ela", atestou o amigo Calazans Neto, instantes depois de tomar conhecimento da morte do amigo de mais de 30 anos. "Bastos foi a coisa mais próxima de um príncipe que eu conheci. Estou muito sentido. Não quero falar, pois não vou agüentar e vou terminar chorando", completou em seguida. Assim como Neto, outros amigos de Bastos não conseguiram dissociar o artista de sua figura humana. Todos se mostraram profundamente consternados. "A Bahia perdeu um grande artista, mas eu perco um grande amigo e uma pessoa da família", disse Heitor Reis, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), que conviveu com Bastos por 50 anos. "O que mais posso dizer dele? É um dos três maiores muralistas do Brasil. Era incomum. Puro. Uma criança que não absorveu a loucura e a maldade do mundo. Que vivia em seu universo próprio, muito lúdico", completou. Para o amigo Sante Scaldaferri, que foi da Turma do Campo Grande, quando ambos tinham entre 15 e 16 anos, Bastos sempre foi um homem muito gentil e ético. "Não atacava ninguém em suas exposições ou entrevistas. É uma grande perda para a Bahia e nos deixa a todos muito tristes". O comportamento de Bastos, de preservar amigos e inimigos, se é que os tinha, infelizmente muitas vezes não foi seguido por apreciadores e público de exposições. Na primeira exposição que fez em Salvador, ao retornar dos EUA, onde deixou-se influenciar pelo surrealismo, uma de suas telas foi atacada e rasgada com gilete. O ataque foi fruto de seu pioneirismo, afinal, foi naquela exposição, no final da década de 1940, na Biblioteca Pública do Estado, onde hoje está a Prefeitura de Salvador, que os baianos tiveram contato com o modernismo. "Bastos gostava muito do Renascimento. Talvez por ser um grande desenhista. Também gostava do surrealismo, cuja base da pintura é o desenho. Então tentava fazer as duas coisas, pintando anjos e o casario da Bahia", comentou Scaldaferri. "Ele (Bastos) foi um inovador. Verdadeiramente revolucionou as artes baianas e influenciou muitos com seu realismo mágico. Era único e teve um caminho próprio", comentou a escritora Myriam Fraga.


Flávio Oliveira e Jair Mendonça
Jornal A TARDE, 13/03/2004