Beleza falsificada
Pintores de mentira, que têm habilidade mas roubam a inspiração de nomes consagrados, faturam cada vez mais
A falsificação de obras de arte é uma prática que cresce de forma espantosa em todo o mundo. Artistas mortos recentemente são os mais atingidos. Pessoas envolvidas com o mercado de arte - que preferem não se identificar temendo problemas com colegas -, falam que as obras de Carybé e Floriano Teixeira (já mortos) têm a preferência dos falsificadores na Bahia, atualmente.
Quem consegue reproduzir com perfeição o quadro de um artista famoso não é leigo. É gente do meio e, muitas vezes, tem nome consolidado na praça. "Pode ser até um artista conhecido", entrega o dono de uma galeria de arte que prefere não ter o nome revelado. "Mas ninguém vai querer comprometer o artista", completa.
Essa proximidade inibe quem poderia denunciar: galeristas e outros artistas. O assunto é delicado e poucos são os que falam abertamente. O preço das falsificações chega a ser maior do que o valor cobrado pelo original. Algumas cópias são tão precisas que entram nos catálogos dos artistas e são "esquentadas" em leilões de arte, sem que ninguém perceba a farsa.
Todos os artistas nacionais e estrangeiros que têm mercado sólido são falsificados. "As falsificações grosseiras são facilmente detectadas. O problema são aquelas feitas por profissionais, gente com habilidade. Essas enganam muita gente", aponta um galerista.
Quem tem uma peça falsa na parede de casa prefere ficar em silêncio, fazendo as pessoas do seu convívio social acreditarem que se trata do original. "Quando descobre que foi vítima, a maioria prefere não divulgar, com vergonha de ser tachado de trouxa. Nada verdade, todos estão sujeitos. O problema é que não há Justiça. Estão todos impunes. Às vezes, a intenção é lavar dinheiro", denunciou outra galerista.
A filha de Carybé, Solange Bernabó, acredita que a catalogação de todas as obras do artista pode barrar as falsificações. A intenção da família é fazer um projeto nos moldes do que foi elaborado para resguardar a obra de Cândido Portinari. "Vamos informar, assim que possível, o início do processo de catalogação. Muitas obras, as principais, têm destino conhecido por nós. O paradeiro das demais será informado por seus donos, que vão querer ter a peça autenticada", anunciou Solange.
Para o artista plástico Calasans Neto, compra quadro falso quem quer. Ele desconhece falsificações de sua obra e afirma que, embora não seja um crime difícil de executar, a vítima pode evitar o golpe sendo criteriosa na compra. "É possível não cair. Compra quem é besta, não conhece nada de arte e não procura confirmar a cadeia sucessória da peça. Carybé é alvo porque seu estilo é fácil de copiar", sentencia.
SEM PERITOS - Falsificação de obras de arte é ato ilícito praticado por quem imita, altera, adultera ou reproduz uma obra de arte com fraude, procurando fazer parecer que se trata de obra verdadeira, em prejuízo material ou moral do artista plástico.
A situação é mais grave porque não há peritos no Brasil que possam identificar as falsificações com precisão. Quem afirma é o perito judicial João Carlos Lopes dos Santos, especialista em obras de arte.
"Mesmo que o laudo pericial seja perfeito e o resultado correto, nem todas as pessoas do mercado iriam admiti-lo como verdade absoluta. Um perito tem que ter vivência diuturna com o objeto da perícia. Enquanto não tivermos catálogos raisonnés (livros que catalogam toda a obra do artista, com textos críticos) sobre a obra dos principais artistas, assim como um maior número de profissionais especializados em, de preferência, apenas um artista, o problema da dúvida sobre a autenticidade de um quadro continuará sem solução", revelou.
Plágio é a imitação total ou parcial de uma obra artística, com intenção de fazer parecer que aquela criação artística pertence ao plagiador, que a assina com seu próprio nome, como se fosse criação sua. A falsificação é o plágio da obra e da assinatura, buscando semelhança absoluta.
FALSIFICADORES - Num campo minado, onde as informações não têm tanta precisão, os casos que vêm à tona confirmam que os falsificadores estão entre os próprios artistas.
"Os Girassóis", do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), já esteve várias vezes sob suspeita de falsificação. Em 1997, o jornal londrino Art Newspaper afirmou que pelo menos 45 pinturas atribuídas a Van Gogh - entre elas "Os girassóis" - poderiam ser falsas. Meses depois, outro jornal britânico, Sunday Times, anunciou que a especialista em arte Geraldine Norman estudou a obra de Van Gogh e concluiu que a tela poderia mesmo ser resultado de mais uma falsificação.
A obra seria de autoria do francês Claude Emile Schuffenecker (1851-1934), pintor, restaurador, professor de arte e falsificador. Na matéria, o artista foi descrito como alguém tão ressentido da sua própria falta de reconhecimento que copiava pinturas de artistas consagrados, com intenção de demonstrar aos especialistas que eles não são capazes de notar a diferença.
No caso de Carybé, houve uma valorização crescente de sua obra no começo dos anos 80. "Um quadro grande meu vale 10 mil dólares", orgulhava-se. Mas os valores são mais altos, alguns podem chegar a até 30 mil dólares.
Na década de 80, houve um derrame de quadros falsos atribuídos a Carybé em Salvador. As telas, com figuras chapadas na praia ou em casarios coloniais, eram vendidas por um quarto do preço de tabela. Anos depois, os falsificadores passaram a preferir artistas mais caros, como Di Cavalcanti e Guignard.
Sylvia Verônica
Jornal A TARDE, 04/04/2004
