A Arte anterior à Arte
Instalação do artista plástico Almandrade
Conjunto Cultural da Caixa
Rua Carlos Gomes, 57 - Salvador - Ba
De 21 de janeiro a 20 de fevereiro
de terça a domingo - de 9 às 17 horas

Almandrade e sua 'Arte anterior à arte'
Almandrade, artista plástico contemporâneo, baiano. Grande figura.
N'A arte anterior à arte', parte do conceito e serve-se exclusivamente dos elementos primeiros do trabalho artístico: cor, linha, superfície. A essência da sua obra é, assim, a 'emancipação' de toda referência à realidade – a criação pura. Pura metafísica?
Sua arte segue a linhagem da racionalização do processo artístico, processo que, embora anterior, toma corpo, principalmente, a partir dos anos 20 e, atravessando todo o século passado, permanece. Por força imanente ou por falta de alternativas? É uma questão que se impõe: a diferença fundamental entre o novo e a novidade. O novo, como a arte que iluminando problemas presentes, apresenta uma abertura para o futuro; a novidade, como a efemeridade, a introdução no universo da arte da característica própria da civilização do consumo e da obsolescência necessária das mercadorias.
Como alternativa ao provincianismo, Almandrade propõe à arte aqui na Bahia produzida um internacionalismo. Anseia por vincular-se (a si mesmo, a sua obra e a arte baiana, em geral), ao caminho artístico aberto pelas vanguardas européias e no Brasil, mais tarde atualizado, nas propostas de Hélio Oiticica e Lígia Clark.
A nós cabe a reflexão sobre se devemos supor a atividade artística como uma sucessão de momentos ascendentes, de tal forma que a arte de hoje aparece como mais uma etapa do caminho iniciado com os impressionistas. Evolucionismo? Ou ainda, se a arte deve refletir o espírito da sua época. Bem, uma das formas de refletir é contestar...
A obra de Almandrade, fruto de uma trajetória absolutamente coerente, é uma combinação divertida, colorida, que atrai o olhar, sugere o primário, o banal, revela o imprevisto. A transformação do banal em poético é envolvente e prazerosa. Embora seja importante um conhecimento que articula e valoriza - o que torna a percepção estética mais rica - uma obra nos toca pelas qualidades que estão nela, não há dúvida - daí que quem não tem isso pode também ver a beleza de uma obra. 'A arte anterior à arte' exprime o sensorial, nos alcançando pela visualidade.
Matematicamente conceituada, precisa, geométrica, projeto de construção espacial exato. Três cores, duas texturas. Combinar a matéria, o espaço e os conceitos procurando trafegar entre a tensão e o equilíbrio. Combinar parece a palavra correta. A realidade, a matéria do artista, parece não carregar traço de objetividade, mas conformar um sistema onde tudo vira signo: a realidade, sistema de signos, como um material a ser manipulado (combinado) pelo artista a fim de criar arte, outro sistema de signos. A arte transforma-se em metalinguagem, discurso sobre discurso e perde a ligação ao seu conteúdo histórico-social, a vinculação com a realidade efetiva dos homens. A arte nasce do particular, é trabalho e ação humana necessário, ou nasce do geral, a partir da determinação de leis e conceitos gerais e universais? Ciência? Arte.
Almandrade acredita que a obra de arte não deva ter uma missão, uma finalidade, não deva propor nada. A não ser problemas. As vanguardas já nos mostraram que todo problema pode traduzir-se em matéria artística. A obra de Almandrade é um convite à gratuidade da arte (e a tudo que isto possa significar), nada que alcance além da síntese de idéia, linha e espaço e da relação destes elementos com a 'leitura' do observador.
A arte é o que se vê, e ver é inventar sentidos, provoca Almandrade, sugerindo a conversão do objeto artístico numa vivência do sujeito, noutras palavras, que a invenção pessoal equivale à criação artística. A experiência estética é um processo relativamente aberto à atribuição individual de sentido (o que não significa ilimitado, já que todo contexto histórico sempre disponibiliza, coloca em disputa, um número limitado de alternativas). Porém esta atribuição de sentido, enquanto tal, é capaz de substituir a própria experiência estética? Ou será que não devemos nem mais vincular a arte ao domínio da estética, mas ao campo do intelecto?
Questões interessantes. Obra interessante. Procurar decifrar a obra de Almandrade. Fica um convite a todos.
Carolina Pontim (museologa)
