Exposição - Trajetória de mestre
Calasans Neto expõe seu universo de criação em Pinturas e Gravuras, mostra que será aberta quarta-feira no Centro Cultural Correios
Tatiane Freitas
Uma mitologia própria da obra de Calasans Neto, representada por peixes, cabras, baleias, pássaros, o mar, o sol, o farol e o povo, funciona como elemento comum aos 65 trabalhos que compõem a exposição Pinturas e Gravuras, que será aberta nesta quarta-feira, às 19 horas, no Centro Cultural Correios.
"Não se trata de mostrar uma retrospectiva do meu trabalho, mas de revelar o meu universo criador por meio das três mídias que utilizo: a tela, a gravura e a monotipia", explica o artista. Cada uma das mídias ocupa um andar da exposição do Mestre Calá, sua primeira individual em Salvador depois de dois anos.
Grande parte das obras foi produzida em 2004 e se mistura a outras de anos anteriores. Segundo Mestre Calá, a exposição funciona como uma história que ele conta sobre um percurso ainda inacabado da própria trajetória, "que teve início, meio, mas ninguém sabe se terá um fim", diz.
Os elementos que figuram nas telas e gravuras revelam o olhar do artista sobre Salvador e mostram a relação dele com o sonho. "Antes, a cidade me encantava e, quando vim para Itapuã, em 1970, descobri outra paisagem e elementos que poderiam fazer parte dela: um pássaro meio peixe, meio homem. Coisas esquisitas de um sonho alucinado".
PAIXÃO PELA GRAVURA – Para o mestre baiano das gravuras, como é conhecido internacionalmente, uma exposição individual na sua terra não gera mais grande ansiedade. "A expectativa é a de ter noção do que realmente estou fazendo, já que o artista nunca vê a obra dele em conjunto, vê por partes", diz.
A importância de Pinturas e Gravuras também aparece à medida que Calasans Neto aproveita para mostrar sua face de gravador e revelar ao público a paixão por esse gênero artístico, que desencadeia nele um prazer que não encontra nas demais mídias.
"Sou eminentemente um gravador ortodoxo, do preto e do branco, apesar de saber que se trata de uma arte de penetração limitada pela necessidade de conhecimento da técnica para admirá-la, diferente da tela, que é mais sedutora pela presença de cores e fruição ampliada", reconhece.
Seja qual for o suporte, ele nega agir sob a influência do quesito inspiração: "Para mim, não existe inspiração, o que existe mesmo é um momento favorável em que o artista acha que realizou uma boa obra, sem saber, no entanto, se irá condizer com o gosto do público".
Entre os trabalhos que lhe trouxeram alegria, ele destaca as ilustrações para livros de Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Florisvaldo Mattos, Miriam Fraga: "Me dá prazer, porque é arte conservada e multiplicada, penetra na casa das pessoas. Os de Jorge Amado são traduzidos para outras línguas, como Tereza Batista, que agora ganhou edição japonesa".
O balanço que Calasans Neto faz de tantas idas e vindas é que a vida lhe deu mais do que lhe tirou. "Não sei se posso ser considerado um mestre da vida, como disse meu amigo cineasta Agnaldo Siri, mas sou feliz", frisa.
Vida e paixão
Durante os dez primeiros e os dez últimos dias da exposição Pinturas e Gravuras, no Centro Cultural Correios, o documentário Calasans Neto – Mestre da Vida e das Artes, do cineasta Agnaldo Siri, e uma série de entrevistas do artista, gravadas em DVD, farão parte da programação, com transmissão durante todo o horário de visitação.
O documentário, gravado na década de 70, foi trasmitido em salas de cinema de todo o Brasil, dentro da exigência de uma lei vigente na época, segundo a qual era obrigatório veicular documentários antes da projeção dos filmes em cartaz. A produção mostra as influências artísticas de Calasans, que começaram a mobilizá-lo num período em que ele era rotulado de comunista, gay e maluco.
Agitador cultural nos anos 50, em busca da renovação das artes plásticas, na Bahia, Calasans fundou, com Glauber Rocha e outros artistas, a Jogralesca, espécie de grupo de leitura de poemas teatralizados, e, com eles, criou a revista Mapa, para expor suas idéias sobre literatura e arte.
Calasans Neto foi, ainda, o fundador da Edições Macunaíma, especializada em livros ilustrados de tiragem limitada, e fez cenários para teatro e cinema, como para o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
Iniciou a atividade artística como pintor no ateliê de Genaro de Carvalho. Depois, estudou gravura em metal com Mário Cravo, na Escola Nacional de Belas Artes, partindo posteriormente para a gravura em madeira.
Foi por meio da gravura que Calasans chegou a sua máxima expressão, apesar de, nas décadas de 60 e 70, pressionado pelas preferências de mercado, ter-se dedicado à pintura. Hoje, ele diz que sua pintura sustenta sua gravura, técnica que o fez conhecido no Brasil e no exterior e pela qual admite, sem cerimônias, nutrir uma grande paixão.
Serviço
Exposição Pinturas e Gravuras, de Calazans Neto
- Abertura, qua, 19h
- Ter a dom, das 10h às 19h/Até 5 de junho
- Centro Cultural Correios (3346-8721)
- Pça. Anchieta, 20, Pelourinho
- Entrada franca
A TARDE On Line - 18/04/2005
