A Imaginação
Na Divina Comédia, Purgatório, Dante diz a respeito da imaginação:
Poi poivve dentro a l'alta fantasia
(Purgatorio, Canto XVII, 25)
[Chove dentro da alta fantasia]
Um pouco antes ele define o que é a imaginação [imaginativa]
O imaginativa che ne rube
tal volta sì di fuor, ch'om non s'accorge
perché dintorno suonin mille tube,
chi move te, se 'l senso non ti porge?
Moveti lume che nel ciel s'informa,
per sé per voler che giú lo scorge.
(Purgatorio, Canto XVII, 13-18)
[Ó imaginativa que por vezes
tão longe nos arrasta, e nem ouvimos
as mil trombetas que ao redor ressoam;
que te move, se o senso não excita?
Move-te a luz que lá no céu se forma
por si ou esse poder que a nós te envia.]

Portal da Imaginação
[monotipia osp]
A imaginação está embutida em nosso cotidiano disfarçada de sinônimos diversos.
O que é senão transpor para uma condição imaginativa quando dizemos "vamos supor"?
O que é senão devaneios quando nos surpreendemos com pensamentos inimagináveis para a nossa razão?
O que é senão imaginar quando encontramos analogias e metáforas?
A imaginação está presente o tempo todo, às vezes revivendo um passado inventado, às vezes reinventando um presente, e às vezes inventando um futuro.
"Afinal de contas, o que é mentira? Apenas a verdade fantasiada."
Byron
Os nossos devaneios, puras loucuras, ensaiam imaginativamente o teatro da vida. Nos arrastam como vendavais para um "tempo-espaço" sem linearidade e sem nexo. O mundo dos sentidos passa a ser único e intransferível. As parakuzias ressoam mais alto que as trombetas!
A imaginação é alimento para os loucos, as crianças, os artistas, os poetas e os filósofos. Destes, muitos já foram para a fogueira em diversas épocas da nossa história.

"Rotação Bidimensional"
[grafite sobre canson]
Rotacione a imagem de 90 em 90 graus e deixe a sua
imaginação fluir em cada nova posição.
Nietzsche, em "Humano, Demasiado Humano - Um Livro para Espíritos Livres" fala da necessidade da imaginação em um período da sua vida e da História da Alemanha:
"[...] foi assim que há tempos, quando necessitei, inventei para mim os "espíritos livres" [...] não existem esses "espíritos livres", nunca existiram - mas naquele tempo, como disse, eu precisava deles como companhia, para manter a alma alegre [...] como valentes confrades fantasmas, com os quais proseamos e rimos, quando disso temos vontade, e que mandamos para o inferno, quando se tornam entediantes - uma conpensação para os amigos que faltam. Que um dia poderão existir tais espíritos livres, que a nossa Europa terá esses colegas ágeis e audazes entre os seus filhos de amanhã, em carne e osso e palpáveis, e não apenas, como para mim, em formas de espectros e sombras de um eremita: disso serei o último a duvidar."
E assim, a mais estranha "coisa imaginada" contribuiu e propiciou grandes descobertas nas diversas áreas do conhecimento, mas também censurou grandes imaginólogos.
À partir da década de 60/70, a Filosofia Oriental começou a penetrar no Ocidente e aos poucos foi derrubando alguns paradigmas. À princípio, em grupos pequenos e específicos, porém hoje, ganha novo espaço a cada dia.
John Lennon, em "Imagine", frente à guerra, propõe que a imaginação projete um planeta em harmonia. Também diz na música: "você vai conseguir imaginar, se você tentar".
Ele deixa claro que, um começo para um objetivo final pode ser a imaginação.
As drogas alucinógenas desta época, também fomentavam a uma imaginação "além do que se possa imaginar". A liberdade, a busca espiritual, a paz e o amor inspirados no oriente, trouxeram uma nova maneira de "pensar" para o ocidental.
Entramos na chamada "Nova Era". E com ela, a presença necessária da imaginação é retomada e percebida em todas as áreas do conhecimento que começam a ganhar novos nomes e novos rumos. Na Psicologia, temos a Psicologia Transpessoal, na Física, temos a Física Quântica, na Medicina, temos a Medicina Alternativa, na Arte, temos a Arte Integrativa etc. Todas elas exigem uma boa dose de imaginação.
O filme "Em Busca da Terra do Nunca", baseado na história de Peter Pan, tem como tema central a Imaginação, a Fantasia. Ou melhor, um apelo para que as pessoas não deixem de fantasiar, imaginar. O quanto isso é essencial para a vida. Quase um ciclo da imaginação: o autor imaginou um roteiro, onde um escritor imagina sua peça de teatro baseada na imaginação das brincadeiras de crianças.
Entramos na arte.
Mas do que necessária, aqui a imaginação é essencial. Para quem faz, para quem assiste:
"A pintura é uma poesia que vemos em vez de sentir; e a poesia é uma pintura que sentimos em vez de ver." Leonardo da Vinci
Aqui, mesmo delegando um dos sentidos para cada tipo de obra de arte, ele contrapõe com a imaginação interferindo no sentido real da obra.
A arte é livre! O artista é livre diante dela! A imaginação é livre diante dela! Mesmo que não seja, para a imaginação, é.
O artista é livre para inventar um sentido que seja aceito, é livre para mentir e/ou omitir. Como é livre para esconder o que expressa naquele suporte. A imaginação do artista é quem guarda o sentido e o sentimento da obra.
Da mesma forma, ao assistir uma obra, o espectador é livre para imaginar e sentir a obra. Também, só a sua imaginação é quem guarda o sentido e o sentimento que abstraiu.
Fernando Pessoa, em "Livro do Desassossego" por Bernardo Soares, também entra no ciclo imaginativo. Primeiro, pelo fato de assumir uma outra personalidade completa (Bernardo Soares) com profissão, crenças, valores etc. E Bernardo Soares fala dos seus sonhos, das suas fantasias e da sua imaginação do seu dia-a-dia. Um trecho chama para um questionamento sobre a imaginação:
"Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham qrandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre à esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece. Por isso amo as paisagens impossíveis e as grandes áreas desertas dos plainos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se relizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há; vou despertar quando sonho o que pode haver."
As retomadas de Joseph Campbell sobre o Mito do Herói e suas analogias contribuem para vôos mais altos da imaginação e para o desenvolvimento humano.
Os estudos de Jung, em "O Homem e seus Símbolos" também lançam grandes vendavais no imaginativo.
Quando juntamos a arte, a psicologia transpessoal, terapias alternativas, física quântica, filosofia oriental etc. encontramos um entrelaçamento estreito que contribui para o que temos de Arte Integrativa.
É onde vejo a imaginação no seu mais alto estágio.
Um exemplo: O Reiki (final do séc.XIX) uma técnica de cura descoberta por Mikao Usui, utiliza-se da energia vital universal (ki). Essa energia é evocada também através da imaginação. Imaginar símbolos, cores etc. Como tantas outras técnicas, a meditação também utiliza-se da imaginação e da música para atingir os estados de consciência que objetiva.
Imaginar é saudável. Cura. Revela grandes segredos. Constrói grandes obras.
Imagine!
Paula Lyn Carvalho
paula@caradepau.art.br
www.caradepau.art.br
