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Luís Antonio Cajazeira Ramos antecipa aquecimento global na Bahia

"Ali estava meu patrimônio: não o dinheiro, não os tefilins, não a tigela de barbear, mas a merda."

Philip Roth in Patrimônio

Sou do tempo em que até a droga pode se tornar pior do que a essência da palavra “droga”. Sou do tempo do crack. Das drogas sintéticas. Minha geração é a geração das sobras de algo ruim, de algo que faz mal. Sou do tempo em que as drogas perderam o glamour, a promessa ou pretexto de transcendência e portas abertas da percepção, incentivo à criatividade e “luta contra o sistema”, com o livro de Marcuse debaixo do braço. E tenho um filho de onze anos. De que época ele fará parte, quando alcançar os meus 35 anos de idade? Que tempo ele terá? Sou de uma geração que fala em aquecimento global, mas que não precisa dele para declarar chegado o fim de uma era. E o fim de uma era passa, inevitavelmente, por sua decadência. Uma crista que vai se desfazendo sobre a cabeça de um careca.

Pois bem, era apenas nisso que eu queria chegar: Luís Antonio Cajazeira Ramos, depois de muita labuta, finalmente tornou-se imortal. Imortalzinho, digamos, porque me refiro a uma academia baiana e não brasileira. Mas enfim, de todo modo a criatura só levantará da cadeira para esquentar o patíbulo. Não sei dos detalhes – nem quero saber – da eleição, e devo lembrar aqui um truísmo: Academia é política, não literatura. Em alguns poucos casos, política e literatura se unem harmoniosamente e elegem um bom escritor. Há, portanto, bons escritores na Academia de Letras da Bahia. Ainda.

E por que essa notícia me incomoda? Porque a cultura baiana de hoje me incomoda, e eu ainda sou baiano, porque moro na Bahia. Em breve deixarei para trás toda essa pobreza “moderna” ao fixar residência em Butão, o país da felicidade, e não mais me incomodará a decadência cultural de minha cidade, de meu estado. Ora, a Academia de Letras da Bahia me entusiasmava quando a descobri, sabendo dos nomes que por ela passaram e os que ainda existiam, já avançados em anos. A ALB, em minha adolescência a mais madura, era um símbolo da intelligentsia baiana, da qualidade literária baiana, era ainda a nata cultural de um estado pródigo, desde Gregório de Mattos, passando por Castro Alves, Xavier Marques, Arthur de Salles e Ruy Barbosa. Sim, era uma adolescência e, naturalmente, havia muita ingenuidade nela. Mas não era preciso que a realidade se tornasse diametralmente oposta à fantasia.

Tinha eu vinte e poucos anos quando comecei a frequentar a ALB em busca de informações sobre Vasconcelos Maia. Eu havia ficado muito entusiasmado com a leitura de dois livros de contos do autor de ABC do Candomblé, e encontrei em Carlos Cunha, à época o presidente administrativo da casa e talentoso poeta avesso à divulgação de sua poesia, um leal escudeiro de Vasconcelos. Cunha me apresentou documentos valiosos, cartas a Vasconcelos Maia enviadas por grandes nomes da literatura brasileira (Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, dentre outros), todas elogiosas, prefácios manuscritos etc. Tomei gosto pela Academia, em função da figura hospitaleira de Carlos Cunha, ao menos comigo – certamente porque me interessava a obra de um de seus maiores amigos –, e fui me informando, muito naturalmente, a respeito de um ou outro acadêmico. Nomes respeitáveis como os de Cid Teixeira, Pedro Moacir Maia, José Calasans, Jorge Calmon, Thales de Azevedo, Luis Henrique dias Tavares, Hélio Pólvora, Consuelo Novais Sampaio, Waldir Freitas Oliveira, Wilson Lins, Jorge Amado, dentre muitos outros. O Poder Jovem ainda não havia chegado à instituição, com sua força sem talento, sua transpiração sem inspiração.

Um dia conheço o jornalista e escritor Guido Guerra, bom jornalista, mau escritor. Em sua casa ele me fala, entre uma baforada e outra de cigarro pendurado a um dedo pela metade, que jamais entraria para a ALB, que acha patético, tal desejo, tão comum entre escritores patéticos etc. E me dá uma lista de grandes escritores que jamais puseram o pé numa academia. O que ele não sabia é que eu já conhecia o discurso do escritor que jamais entraria na ALB. E não deu outra: Guido Guerra, pelas veias abertas de Ruy Espinheira Filho, torna-se acadêmico e engrossa o caldo das histórias pitorescas envolvendo o nome da instituição fundada por Arlindo Fragoso, também fundador da Escola Politécnica da Bahia e autor de diversos livros sobre educação e agricultura.

Depois de tantos prêmios nacionais outorgados pela ALB a escritores baianos, ano após ano, comecei a sair de minha adolescência “acadêmica”. E quando lia o livro premiado, amadurecia dez anos em cem páginas, no que diz respeito à ALB. O resto é o Poder Jovem, supracitado, e Maria da Conceição Paranhos de molho, do lado de fora da Academia, assim como Ildásio Tavares, dentre outros tantos autores baianos com todo o direito de sentar em uma das cadeiras dos imortais.

De repente o baiano torna-se apressado. Não há mais – talvez jamais tenha havido – aquela figura folclórica do baiano banzo, lento, preguiçoso. Em absoluto! Um poeta com três livros – ruins – publicados já tem obra reunida em um só volume nas livrarias. Pressa tamanha de ser autor oficial, de ser poeta ou escritor que ninguém compra, mas que todo mundo conhece de ter ouvido falar o nome. Importa ser falado, apenas. E haja campanha para fixar um nome. O poeta passa a fazer parte da mobília da ALB, não sai de lá para nada. Já tomava café da manhã na Academia quando ainda nem pensava tomar o chá das cinco. Torna-se amigo de todos os acadêmicos, mais ou menos como as marias-chuteiras em relação aos jogadores de futebol, vai se tornando papagaio de pirata, ou seja, aparecendo atrás do ombro de tudo quanto é gente “importante”, e levando muito a sério a atuação, sempre eficiente, do homem cordial, cordialíssimo, vulgarizado por Sergio Buarque de Hollanda (uso o “cordial” agora na dupla acepção do termo). Passa a fazer cada vez menos poemas, afinal, anda em campanha, angariando votos a cada gesto e coçar de cabeça, dando carona a quantos não podem voltar de carro para casa. Passeia pela cidade, por conta disso, e aproveita para distribuir cartões de visita. É importante ter um editor de jornal em seu rol de amizades, e o poeta em campanha não se esquece disso. Ainda mais importante é tornar-se grande amigo do poeta mais popular da Bahia no Brasil. E elogiar, elogiar muito todo e qualquer poeta acadêmico, considerando cada um o melhor da Bahia, dependendo dos presentes à récita. Pressa: esse é o maior problema do ingresso de Cajazeira à Academia. Maior que seus sonetos ruins. Falta obra ao poeta, embora não lhe falte trabalho, quase braçal.

A Academia de Letras da Bahia, hoje – e já há algum tempo –, não me causa orgulho algum. Seja por seus membros, seja pelas atividades realizadas na casa. Até um analfabeto, se quiser, pode lançar um livro de poemas – é mais fácil achar analfabeto em poesia do que em prosa – no velho palacete Góes Calmon. E que dizer de determinadas palestras e conferências em nome dos novos nomes da “literatura” baiana?

Peço um parágrafo para falar novamente a respeito de Ildásio Tavares. Poeta e tradutor, com mais de quinze títulos publicados, entre poesia, romance, conto, dramaturgia e uma ópera negra. Era mau poeta, mas não a ponto de competir com um Sérgio Mattos, digamos, e isso já é suficiente para tornar-se acadêmico por aqui – afinal, como explicariam a imortalidade de Glaucia Lemos? Ildásio publicou um respeitado livro sobre a arte de traduzir e pelo menos dois títulos sobre candomblé e a influência da cultura negra na Bahia. E ainda assim, morreu o poeta, em outubro de 2010. Maria da Conceição Paranhos merece outro parágrafo, ainda maior, mas já me excedi em espaço... Aliás, é bom lembrar que foi Paranhos quem abriu as portas para Cajazeira Ramos, aqui na Bahia, apresentando-o a outros poetas e acadêmicos. Sempre generosa com poetas emergentes, aprovou os sonetos engessados e afetados do hoje imortal poeta baiano e, pelo visto, também será enterrada, mais cedo ou mais tarde.

Eu, o que direi a meu filho, se um dia ele comparecer a um evento na Academia e encontrar Cajazeira Ramos dividindo a mesa com Yeda Pessoa de Castro?

Aquecimento global, meu filho. Você não lê notícia?

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