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Joana D'Arc
Eu também escutei vozes. Que também me perturbaram. Minha sorte é que não vivo em tempos de fogueiras – senão as de São João.
O corpo subestimado dos atores, pela direção do espetáculo, fez com que o elenco gritasse para além do coro da sala do teatro Castro Alves. Mas esse não é o maior problema da peça dirigida por Elisa Mendes (A vida de Galileu) e encabeçada pela atriz Jussilene Santana, que faz a donzela de Orléans.
Há ainda o despropósito seminal do texto de Cleise Mendes. Eu me pergunto: por que escrever um drama a partir de um acontecimento narrado, descrito, filmado por grandes artistas de todo o mundo e de todos os tempos após o século XV? O texto escrito por Cleise Mendes se justificaria se trouxesse na manga um ás de ouro. Não é o caso. Não há um novo ponto de vista, um detalhe a ser lembrado, uma visão pessoal da autora, séculos depois, ou a descoberta de mais uma injustiça contra Joana em seu martírio, o martírio daquela que hoje é a padroeira da França.
O texto de Cleise é bem construído, afinal de contas, estamos falando de uma mulher com larga experiência em dramaturgia, escrevendo e ministrando cursos sobre a arte de escrever para teatro. O problema se encontra no conteúdo do formato. Se a forma obedece rigorosamente aos protocolos de uma dramaturgia inteligente, o texto em si, as falas são anódinas e previsíveis – esse o risco de chover no molhado – e não empolgam em momento algum. Parece haver uma distribuição centenária de texto, aqui e ali, um jogo de empurra, esticado ao máximo da tensão pelo excelente trio de vilões: o promotor, o bispo e o conde de Warwick.
Ser envolvido por uma obra de arte é um acontecimento ou fenômeno que prescinde do conhecimento de teorias e do engenho do artista. Naturalmente, alguma fatura do intelecto em tal ou qual gênero artístico engrandece, aumenta as possibilidades de se ter prazer com uma obra. Mas o fato é que é perfeitamente possível transbordar diante de uma estética, sem dominar os bastidores, do mesmo modo que é absolutamente possível gozar com sexo casual. Pois bem, em momento algum o Henrique Wagner espectador se sentiu transportado para a Guerra de Cem Anos, entre França e Inglaterra, e menos ainda para a Europa da Baixa Idade Média. Não senti prazer, não me senti envolvido, tomado, vampirizado.
Uma possível explicação para a existência de mais um texto que conta o martírio de Joana D'Arc está na orientação feminista para a construção da personagem principal, a camponesa analfabeta, nascida a 6 de janeiro de 1412, queimada viva pela igreja – a igreja, sempre a igreja – ao dia 30 de maio de 1431. Há texto demais para uma camponesa analfabeta e, em um dado – e infeliz – momento, a autora dá a chance à Joana de Jussilene de aproveitar de uma didascália, falando ao público como se explicasse a legenda. Sim, uma analfabeta do século XV, e na França, poderia falar bem, raciocinar com alguma perspicácia e ter coerência em seu discurso. Mas, além de não haver provas de que esse era o perfil de nossa heroína, há menos provas ainda de que houvesse necessidade, para fins dramatúrgicos, de um tipo que falasse para as multidões e hipnotizasse platéias com sua oratória sublime.
A atuação um tanto confusa ou indecisa de Jussilene Santana autoriza o público a ver na donzela de Orléans uma criatura híbrida e pouco convincente, que ora grita e desespera – sem muita convicção – e ora parece uma líder das sufragistas inglesas do começo do século XX. Vi mais Jussilene que Joana, durante todo o espetáculo.
Há dois bons motivos para assistir à peça, se alguém quiser suportar o que há de mal concebido e engendrado. Um desses motivos é a cenografia e a idéia de lidar com o fogo, a todo momento, pelos próprios atores, que levam, de lá para cá, imensos candelabros com rodinhas, fazendo da iluminação, sempre mortiça, uma espécie de salamandra, uma luz ambulante que cria um ambiente propício à terrível história que será contada. O cenário, mínimo, assinado pelo talentoso Zuarte Júnior, representa com fidelidade a arte argótica – ver Fulcanelli – da França em tempos sombrios do século XV, com as cinzas de seus arcos em ferros decrépitos e gastos.
O outro motivo para suportar a peça é a excelência dos vilões, verdadeiros heróis, cuja missão é amenizar a monotonia do espetáculo, e para os quais torci a todo instante, uma vez que a Joana de Jussilene não conseguia me comover. Falo de Carlos Betão, o promotor, que nos passa toda aquele paternalismo barbudo de quem nos deseja proteção, ainda que tendenciosa; Hamilton Lima, que constrói um ardiloso Conselheiro do Rei, verdadeiramente asqueroso, e ainda faz o Bispo do Tribunal Eclesiástico, um tipo sem muito pulso; e, por fim, Widoto Áquila, dono do personagem mais complexo e rico, dentre os vilões históricos, apresentados pela autora do texto, o inglês Warwick. O personagem de Widoto parece mutilado pela guerra em sua mão direita, o que leva o ator a ter de ser virar, não sendo canhoto, com a mão esquerda, que anda a manejar candelabros acesos. Há ainda o terrível cacoete do nariz tentando expelir algo abjeto, talvez o próprio nariz – de Gógol... –, uma provável histeria em conjunção a uma neurastenia provenientes da intolerância generalizada de um homem verdadeiramente cruel e impaciente em sua crueldade. Widoto dá a Warwick a aparência de um perfeito vilão, daqueles que assustam e a quem desejamos a morte no final feliz de uma história clássica.
Joana D'Arc ouvia as vozes de duas santas e do arcanjo São Miguel. As santas eram Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida. Além disso, depois de ter deixado a família para liderar um pequeno exército que combatesse a Inglaterra em benefício da França, Joana passou a usar roupas masculinas.
Por meio de flashbacks, a peça de Elisa Mendes nos faz sentir uma imensa vontade de ver os famosos close-ups do rosto de Falconetti, tensa, silenciosa, analfabeta mesmo, e resignada pela sua orientação religiosa, que cultiva a dor à guisa de redenção. O famigerado filme de Carl Theodor Dreyer, que conta ainda com a participação de Antonin Artaud, apaga, com seus famosos brancos nevosos, qualquer tentativa pálida de colorir uma história contada com maestria por nomes bastante sólidos da arte de preservar e dar continuidade a uma tradição.
9/12/2009 15:44:59 - Teatro Baiano Um teatro baiano acabou, Henrique Wagner, ou foi acabado, melhor assim. Logicamente virão outros. Também é sempre assim. Já temos um comentarista. Postado por:Aninha Franco
10/12/2009 17:10:25 - Crítica N O J E N T O ! Postado por:Brum Neves
10/12/2009 20:35:17 - Confraria dos Espadas Parece haver uma Confraria dos Espadas em torno da Jussilene Santana. O problema é que essa confraria é toda constituída de velhinhos sátiros... Que bom. Talvez assim não se reproduzam... Postado por:Henrique Wagner
11/12/2009 11:27:09 - Confraria dos Espadas 2 Cara, numa boa? A Jussilene Santana não precisa de confrarias. Não culpe as pessoas de diversas idades (sexo e origens)de reconhcerem seuS talentoS. Vc bem sabe disto. E, sem sacanagem, só um toque li um outro artigo teu por aqui e a menina apareceu de pára-quedas! Cuidado para não degringolar...Abração Postado por:Marco Nunes
11/12/2009 13:27:49 - Claque da vaia Quero deixar claro que gosto da Jussilene Santana. Assisti a três peças com ela e gostei muito da atuação da moça em Shopping and Fucking, do Fernando Guerreiro. Para mim ela está entre as melhores da geração dela, ao lado da Evelin Buccheger, Aícha Marques, Andrea Elia, Márcia Andrade e outras poucas. O que acontece é que não gostei dela nessa peça, e apenas nessa. Além do mais, não sou um velho sátiro que deseja a Jussilene a qualquer custo. Fiz uma crítica sem qualquer ofensa. Falei que não gostei disso e daquilo e expliquei por que não gostei. Na história do teatro existem vaias e aplausos. Aqui parece que só se pode aplaudir. MIchel Simon, um dos maiores atores de teatro do Ocidente, foi vaiado no auge da carreira, e concordou com as vaias, pois achou mesmo que atuara mal... Então a Bahia não pode ser vaiada??? E olha que não vaiei literalmente. Fiz uma crítica, um texto. Vaiei por escrito, à distância, e, portanto, sem causar constrangimentos dentro da Sala do Coro. Postado por:Henrique Wagner
11/12/2009 13:29:17 - Claque da vaia 2 Mas parece que o barulho foi maior que o que eu poderia fazer vaiando no Tca... Há uma Camorra no teatro baiano, atualmente. Mas continuarei saindo por aí sem guarda-costa. Postado por:Henrique Wagner
11/12/2009 15:28:21 - Cr´tica Sua articulação é invejável, mas suas críticas possuem um aroma tendencioso. Jussilene não tem confrarias e com certeza a sua espada mais afiada é o seu próprio talento.. e atenção! Muitos velhinhos reproduzem mais que muitos ninfetos metidos a varões. Postado por:Brum neves
6/1/2010 22:57:16 - show HENRIQUE... você é show! o teatro na Bahia precisa de discussão, mesmo! mas pq insistem em lhe calar? você sabe o que fala e é lindo ler vc! respeitar o modo de ver alheio é importante... só não consigo entender o tamanho da falta de inteligência de alguns que forçam nas palavras paixão pela arte cênica(pura falácia), mesmo que esta seja usada de forma "emburrecedora" e meramente mercadológica!realmente, só o saramago pra explicar em seu ensaio.
os comentaristas deste site misturam as coisas... me respondam:vcs estão sempre esperando a próxima do HENRIQUE, né? o nome dele é HENRIQUE WAGNER e é igual a: TEM QUE TER MUITA CORAGEM, COMPETÊNCIA E INTELIGÊNCIA para escrever o que ele escreve. PARABÉNS, HENRIQUE!SEU NOME É BEM DITO, BENDITO! Postado por:tanto