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Debate de Idéias com Taís Wonder Grimme
uma tarde, ao entardecer
O assunto da ARTE precoce e inata povoou minha infância e adolescência, inspirando-me, enriquecendo tudo o que era pobre em meu entorno, possibilitando cores, sonhos, ocupando minha cabeça por décadas com questões complicadíssimas que versavam sobre qualidade das coisas feitas com a mão, fama, aceitação por parte dos que nos afligem, valores, beleza, sedução. Através de leituras diversas e casuais, visitas arranjadas pelo espontâneo das coisas, passei a compreender que a ARTE, também conhecida por mim como um esforço inalcançável de alguém, como por ser de plena formação, assegurando conhecimentos que eu não sabia explicar. A esses usuários da excelência disponível, a qualidade da assistência familiar, e que era bem possível de ser conquistada, não só por mim mas por muitos que conheci, com muito carinho, esforço conjunto e doação pessoal, além de muita, muita dedicação e compenetração. A própria palavra "ARTE" contém um certo estranhamento que muitas vezes vi estampado nos rostos dos que me ouviam atentamente buscando compreender minha função de artífice das ocasiões, pois ela, a ARTE, estava completamente deslocada nesses ambientes, e eu, com maestria natural a evocava. Pois é, evocação, uma palavra que trás em si uma certa novidade que quer, e insiste pelo seu modo quebrado, nos convencer de uma veracidade. Assim eu tentei e prestidigitei a platéia. Acreditar, é sobretudo um termo técnico moderno, um ente de poesia, um nome para se gritar quando vive-se de vender verduras frescas. Não constante em dicionários, acreditar, nesse sentido complexo para designar conquista com qualidade dos argumentos que o rodeiam, é uma palavra que contém múltiplos procedimentos que se descortinam aos poucos, que nos envolve numa aventura de desafios e correções e nos faz compreender e formalizar a melhoria dos processos de nosso trabalho seja ele claro de sua missão ou apenas um impulso. Mas, quero chamar a atenção para a meritória idéia de continuidade que vem, inelutavelmente, embutida nessa palavra para logo além das primeiras conquistas que nos propicia. Uma das condições para a ARTE que, após conquistada, prevalece como suplemento autenticado em cada trabalhador envolvido nessa história, validando seus esforços em todas as fases, exigindo um caminhar atento e contínuo, sem tréguas, que nos levará de pronto a uma nova superação. A ARTE é assim.
por onde alguém deve seguir
"Um violino toca fora de hora e de lugar. Tenho uma gentil lembrança de observações que ocorreram lá pelos anos de 1964, quando ainda tinha oito anos. Esse filme lento que ocorre em contínuas sessões em algum canto do meu cérebro ou de meu coração, às vezes um, às vezes o outro, entrecortado por rasgões escuros que se sobrepõem as imagens me diz, em uma mistura de perversos odores e sons longínquos que não mais posso definir, mas que sempre se insinuam doces e coloridos no plásticos do céu, do tingido do chão vermelho e esvoaçante, da luz fluorescente na varanda de minha casa - uma novidade para os meus olhos - me ensinaram o caminho para a vida, ou melhor dizendo, minha maneira particular de perseguir essa vida. Essas lições as apreendo por fidalgos instantes. No ofício que construí a partir de tentativa e erros, inclino-me, inexoravelmente, sobre materiais diversos e neles imprimo o que desejo, o que intuo e o que, certamente, nunca compreenderei e que vêm aparecer em formas e cores. Da neblina espessa das manhãs solitárias de minha infância, movimentando-se lenta por entre os montes e casas simples, que admirava caminhando em direção a escolinha de madeiras verdes, aprendi muito sobre a vida. Aprendi como ama-la sem pensar, como compreendê-la sem explicar, como acreditar em sua existência sem a necessidade de comprová-la, tão simplesmente como a lição da professora que cantava em classe "antes do 'p' e do 'b' temos 'm'." Os acontecimentos se sucederam como páginas folheadas em um livro escrito. Os formatos da vida insinuaram-se categóricos em suas sensações, massas e fluídos. Muitas vezes, quando não estou ocupado com inúmeros afazeres, fico livre e relembro daqueles coloridos; daquela luz fluorescente brilhando, tímida, na escuridão do quintal; da terra fresca e molhada pela neblina insistente naqueles anos, meus olhos ficam aguados e me acalmo. Nesses momentos sei que ouço, que vejo, que sinto, sei que cheiro com o nariz apenas com o poder de lembrar, mas ainda não compreendo para que tanta vida e por que me alegro com ela e aceito suas quantidades."
complexos sentidos
"Não recebi nada anteriormente conforme informei.
Não te enviei nada pois não tinha com o que trabalhar."
Analisando a frase, que quer de inicio como tema, "Transformando idéias em poemas!" adotada, percebo um certo engano na afirmativa. Tento explicar-lhe:
Redigir criando sentidos complexos, ou sem imediata explicação, não se afeiçoa a comemoração de uma entidade criativa séria. Essa fórmula é inadequada, antiquada e amadora, já fartamente usada em muitas outras ocasiões pela literatura desavisada. Digamos que tem suas bases semióticas calcadas em um engano, em um desavisamento, pois em nenhuma situação conhecida idéias previnem poemas, muito ao contrário, idéias expõem e deixam seu criador a mercê da capacidade do interlocutor entender o proposto, as vezes a humanidade leva séculos para compreender uma idéia. A idéia não se transforma em nada pois ela é o extrato de uma captação, de uma intuição. A verdadeira idéia constrange os ditames comuns; expõem seu inventor muitas vezes ao ridículo; após uma idéia todas as trajetórias são mudadas, todos os rumos corrigidos. Portanto a afirmação "Transformando idéias em escritos!" é infeliz no que diz respeito a filosofia que tenta encerrar. É como admirar a beleza de uma flor de plástico atribuindo-lhe predicados da natureza.
A palavra "idéia" tem como fundamento a filosofia. A palavra "escrevendo" e elemento de sustentabilidade com seu conceito nascido na contemporaneidade. Uma criatura com menos de 60 anos de existência tende a pretensão se quiser explicar esse fenômeno.
Finalisando, para extrair-se algo desse caminho deveríamos dizer que "A escrita proporciona idéias iluminadas". Aí sim poderíamos achar a verdadeira frase para os próximos séculos.
Luiz Carlos Rufo - Debate de Idéias com Taís Wonder Grimme.