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BOI ARUÁ premiado na Mostra do Filme Livre

Rio de Janeiro, CCBB

"Uma das características do nosso evento que mais temos orgulho é dar visibilidade a filmes considerados antigos. Assim, tivemos a sorte de redescobrir uma pérola perdida em nossa cinematografia, o desenho animado "Boi Aruá" , de 1983, do artista plástico baiano Chico Liberato. E "Boi Aruá" é, simplesmente, o longa de animação mais brasileiro de todos os tempos. É claro que este tipo de afirmação, além de chavão, é sempre um risco. Até porque ninguém sabe 100% ao certo o que é ser brasileiro – o que não é ruim, já que conclusões fecham novas possibilidades. E não vimos todos os desenhos animados brasileiros existentes pra falar isto com a devida segurança. Mas se pode dizer, com certeza, que há poucas obras parecidas com este filme em todo o planeta. Baseado no imaginário do sertanejo nordestino, "Boi Aruá" é muito mais do que uma simples e didática adaptação deste mundo, e sim uma transposição extremamente criativa desta cultura para o audiovisual. Com um traço típico dos desenhos de cordéis – mas diferente da linha "em perfil" de J. Borges, em que o gênero ficou mais associado – a identificação se torna imediata e já garante um diferencial. Como se isto não bastasse, a própria narrativa é peculiar, nada óbvia e com diálogos soltos, e fica completamente justificada dentro do mergulho mitológico desejado. A orquestração (de Ernst Widmer) acompanha a inventividade do contexto e, ao escutar a música de Elomar na segunda metade do filme, tudo faz sentido. Apesar da pouca obviedade, fica clara que é a história de um vaidoso e austero vaqueiro que cisma em capturar um boi selvagem. Aquilo se torna uma obsessão que diz muito sobre o personagem, comparável com a raiva do Capitão Ahab em pescar a sua Moby Dick. Nisso, tal touro se torna metamórfico, ora um simples animal, ora uma espécie de Exu, ora vira uma constelação, ora o próprio vaqueiro e assim vai. O mesmo acontece com o sertanejo. A animação em si não é das mais articuladas, porém isto se torna um outro elemento elogiável, pois combina ainda mais com o tom naïf ligado ao cordel. E dentro dos poucos recursos que o filme teve – principalmente ao lembrar que esteve longe das facilidades digitais de hoje – Chico esbanja em liberdade poética, seja repetindo elementos, seja com soluções bastante criativas. Exemplos: o cavalo que passa por barras preto-e-branco, causando uma ilusão de ótica; as caras e corpos das pessoas se metamorfoseando; um estranho diabo que passeia com uma mula-sem-cabeça com a sua cara (!) etc. São muitas cenas assim que, para um apelo mais "pop", podem ser lidas como "psicodélicas" ou mesmo "tropicalistas", mas que, aos meus olhos leigos, trata-se de uma perfeita transposição de um universo bastante específico. Há muito mais o que se dizer sobre este filme tão peculiar, mas por ora deixo as surpresas para o espectador. Que caia mais em nossas mãos surpresas assim! (KZL)"

O Prêmio CARÍSSIMA LIBERDADE, destinado a filmes realizados com apoio estatal direto, foi merecido pelo longa-metragem "Boi Aruá", de Chico Liberato, da Bahia, pela "alegria de descobrir uma pérola escondida é sempre especial. Sobretudo quando ela vem à tona em meio a um festival, onde inúmeros filmes disputam um lugar ao sol. Pois este ano, esta pérola surgiu devido a uma das características mais bacanas da Mostra do Filme Livre: aceitar filmes realizados em qualquer ano. De 1983, período em que o cinema brasileiro encontrava-se um tanto sem rumo, nos chegou um filme único dentro do seu gênero, propondo de forma elaborada e inteligente a transposição de uma cultura popular bastante específica para um contexto cultural mais amplo, sem medo de enfrentar a miríade de questões que isto provoca. Por buscar numa manifestação autenticamente brasileira a matéria-prima de sua ficção e de sua forma, Boi Aruá constrói uma possibilidade de cinema que inaugura-se e encerra-se em si mesma, já que à parte de alguns curtas-metragens, a maioria em tom anedótico, a literatura de cordel nunca alimentou uma produção audiovisual de forma tão completa e bem-sucedida quanto neste filme. A ele concedemos, portanto, um prêmio especial de re-reconhecimento, neste ano de 2009, e os votos de que seja visto e conhecido por uma parcela muito maior de espectadores e cinéfilos brasileiros." (Tatiana Monassa, júri da MFL 2009)


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28/05/2009 23:26:04 - Legado cultural
Concordo com a crítica, Boi Aruá é mesmo um achado, valorização plena da nossa cultura nordestina.
Postado por: ´Fátima Santiago
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